quinta-feira, outubro 08, 2009

CARMINDICES


Carmindo Mascarenhas Bordalo*




MÁSCARAS DO PS


> Fernando Dacosta é autor de um livro, Máscaras de Salazar, cujo título se contrapôs a outro, Salazar sem Máscaras. Para Dacosta, a personalidade plurifacetada de Salazar nunca permite traçar um retrato monolítico do antigo governante: ora académico rigoroso, ora militante católico, ora homem que se afastou da Igreja; apoiante do bloco ocidental, desconfiava dos EUA; líder por muitos considerado autoritário, sustentava por caridade uma corte de necessitados.
Creio que hoje podemos falar de máscaras do PS: organizações oficialmente sem ligações aos socialistas mas que o PS manobra na penumbra para obter mais influência social.
Por exemplo, ainda hoje se fala da exemplar organização comunista e da sua força "na rua", apesar de uma estrutural queda de peso eleitoral do PCP (que é hoje a 5ª força política nacional, com menos de 8% dos votos).
Será verdade? Continuará o Partido Comunista a ser uma relevante força social com implantação ao nível de sindicatos e de organizações de base com poder "real"? Começam a surgir sérias dúvidas.
Há vários anos que o Secretário-Geral da CGTP (confederação que em tempos era tida como a longa mão do PCP para as questões sociais e laborais) é apontado, especialmente na blogoesfera (que não tem constrangimentos de patrocínios financeiros), como estando em rota de aproximação ao PS: assinou o acordo de concertação social relativo ao salário mínimo (o que era inédito quanto à CGTP) e diz-se até que foi ele quem conseguiu o acordo entre a FENPROF e Maria de Lurdes Rodrigues quanto à carreira docente.
Curiosamente, Carvalho da Silva tem fortes ligações a um alfobre de governantes socialistas, o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). Foi lá que conseguiu acumular a estenuante vida de dirigente sindical com a realização de licenciatura e doutoramento em Sociologia. Na casa de figuras como Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso, Vieira da Silva, Maria de Lurdes Rodrigues e Augusto Santos Silva, o sindicalista alcançou os títulos académicos que lhe faltavam.
As suas relações com a ala ISCTE do PS são tão próximas que Ferro Rodrigues festejou o 1º de Maio com a CGTP quando liderava o PS.
Ontem, Carvalho da Silva manifestou publicamente o seu desejo de que António Costa ganhe as eleições para a Câmara de Lisboa.
É o culminar de uma tendência. Também António Teodoro, antigo dirigente da CGTP, apoia o PS em Lisboa.
Tenho informações de que no seio das bases do movimento comunista a posição de Carvalho da Silva foi recebida com profunda consternação e até revolta. Mas isto quanto às bases. As altas cúpulas, pelo que se vê e se lê, têm de engolir um sapo: Jerónimo de Sousa e Ruben de Carvalho, fingindo desprendimento, menorizaram a questão.
É caso para questionar: será que importantes franjas do outrora férreo PCP estão agora transformadas em mais uma das máscaras com que o PS gosta de dominar a vida social? Será que a CGTP é outro ISCTE? E pergunte-se ainda: será que os dirigentes do PCP, que tantos renovadores expulsaram por muito menos, estão agora resignados a este papel?



*Professor Catedrádico Jubilado, cronista residente

1 comentário:

(c) P.A.S. Pedro Almeida Sande disse...

ISCTE, CARVALHO E O NICHO DO CLUSTER DA ASFIXIA DEMOCRÁTICA
Não tenho dúvidas de que os dois maiores clusters de vacuidade democrática, salvaguardada as virtuosas excepções já que a generalização é a arma dos ignorantes, se chamam ISCTE e ISE (hoje ISEG). O primeiro pelo fundamentalismo na acção dos ensinamentos de Parsons e do estrutural-funcionalismo, o segundo pela macrobiótica insuflação do capital de Marx. No meio dos dois resta-nos ir respirar ar puro às capitais das verdadeiras e não provincianas democracias Europeias. Faça-se rápido o TGV para Madrid! A poluente asfixia democrática assim o exige!