
Carlos Melancia, ex-governador de MacauO director do 'Expresso' aborda hoje no seu editorial o tema das suspeitas de corrupção que continuamente recaem sobre figuras públicas, sem que os processos judiciais sejam esclarecedores ou punitivos. E dá vários exemplos. Entre eles, indica o caso do ex-governador de Macau, Carlos Melancia.
Henrique Monteiro dá a entender aos seus leitores que Melancia teria sido apanhado numa teia relacionada com as eleições presidenciais que envolviam Mário Soares, candidato na altura ao cargo de Chefe de Estado.
O Henrique não sabe da missa nem a metade.
Contrariamente a todas as vozes e escritos que até hoje se manifestaram sobre o caso, posso assegurar-vos que Carlos Melancia foi o governador de Macau mais sério das últimas décadas naquele ex-território chinês sob administração portuguesa. O antigo governador nunca se decidiu por esclarecer os portugueses da verdade. Infelizmente, para ele, carrega às costas um fardo muito doloroso em nome da solidariedade institucional, partidária e maçónica. A verdade, essa, nunca sairá da boca de Carlos Melancia. E é pena. Estou certo que também não autoriza ninguém a descrever o que verdadeiramente se passou. Se eu me pronunciar neste momento sobre a verdade dos factos, Carlos Melancia virá amanhã desmentir-me. Sei disso.
O célebre 'fax' atirado para a redacção de um jornal foi uma cabala maior que toda a área do território de Macau. Só quem esteve em Macau muito por dentro de tudo o que se passou, pode (mas não querem) testemunhar que Carlos Melancia era um bom governador, empreendedor, defensor dos valores culturais e económicos dos portugueses, facilitador dos interesses da China e humilde e social q.b.. Naturalmente, que um homem deste tipo, era um alvo facilmente controlável e moldável. Para o bem e para o mal. Carlos Melancia facilitou tanto aos interlocutores do seu Partido Socialista e aos interventores político-corporativistas locais que caíu nas suas mãos. Mãos sujas de traição, de invenção, de corrupção, de interesses económicos enormes (tais como a construção do aeroporto de Macau), de financiamento de jornalistas corruptos e de investigadores pouco sérios, de ligações mafiosas com interesses internacionais, de venda de armamento para as Forças de Segurança de Macau, de adjudicações falseadas de obras públicas e, acima de tudo, mãos ávidas de deixar cair um homem que não servisse os interesses directos dessas mesmas mãos conspurcadas de chantagem e ameaça.
Carlos Melancia sabe que de vez em quando lá vem à baila um texto semelhante ao de Henrique Monteiro: inverdadeiro, deturpador da sua idoneidade e seriedade, corrosivo.
Melancia tudo tem aguentado e silenciado.
A sua dor e paciência devem ser ilimitadas...
Comentário oportuno de João Carvalho:Após a saída de Melancia, fiz parte de um gabinete do governo de transição, que durou vários meses e foi liderado por Murteira Nabo.Não serei eu a confirmar ou desmentir uma história que permaneceu obscura até hoje. O certo é que essa história não está seguramente nas mãos de Henrique Monteiro.Uma coisa é certa: Carlos Melancia (bem ou mal aconselhado) conseguiu que o seu processo judicial fosse separado dos restantes arguidos à época. Isso valeu-lhe o arrastamento do caso durante vários anos, até ter sido julgado. Encerrado e enterrado o caso, independentemente da decisão judicial então proferida e que ninguém pode contrariar, foi infeliz a alusão feita hoje no 'Expresso' por Henrique Monteiro.Não faltam casos na política relativos a suspeitas de corrupção e que ninguém sabe por onde andam, se é que andam. Melancia é um homem livre há muito, que sofreu as consequências políticas que se sabe e cujo nome foi alvo de consequências judiciais pelo tempo tremendo que o arrastaram. O actual director do 'Expresso' podia recordar todos os casos por concluir. Não sei é se devia lembrar este. Ou melhor: até sei.