> - Olá, doutor, como tem passado? Prazer em vê-lo!
- Igualmente! Olhe, reformei-me da função pública...
- Então? Mas, o doutor ainda não fez sessenta e cinco, pois não?
- Não! Mas aquilo lá no Centro de Saúde estava insuportável e a ministra é uma atrasada mental apesar de ter tirado o mesmo curso que eu... estava farto de apresentar propostas para melhorar a situação, para evitar o caos, para que as consultas tivessem um pouco de dignidade e nem uma resposta tive nos últimos quatro anos... e não fui só eu, comigo abandonaram mais quatro colegas...
- Lá no Centro de Saúde?
- Sim, sim! Agora já pode imaginar o que se passa pelo país... estes tipos não têm a mínima noção do que andam a fazer... e com os medicamentos vai ser um pandemónio...
- Como assim, doutor?
- Eu quero ver quando as farmácias começarem a não aviar as receitas... já são milhões de euros que o Estado ainda não pagou às farmácias que forneceram medicamentos comparticipados...
- E para onde vai trabalhar, doutor?
- Olhe, tive uma proposta muito boa, de um hospital privado e para ficar como responsável do departamento direccionado às intervenções voluntárias de gravidez.
- Os abortos têm aumentado, doutor?
- E muito, mas de uma forma vergonhosa. Este governo aprovou a lei sem ter a mínima noção do país real... as mulheres estão a sofrer muito, continua-se a interromper a gravidez clandestinamente quase de uma forma contínua... no outro dia assisti a uma mulher que já tinha realizado oito abortos e sabe o resultado?
- Qual, doutor?
- Um cancro no útero!... Neste momento temos mulheres que realizam a intervenção voluntária da gravidez e que nem têm apoio psicológico...






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