quinta-feira, agosto 19, 2010

O REGRESSO DA CARAVELA

> As explicações dadas pelo Governo de Pequim, para justificar a recusa em autorizar a vinda do navio-escola Sagres a Macau, pecam por serem curtas e obscuras. Se acrescentarmos a isto a confusão patente nas declarações dos ministérios portugueses dos Negócios Estrangeiros e da Defesa e nos comentários feitos pelo comandante da Sagres, resulta óbvio que haverá alguma coisa mais do que a simples “falta de condições técnicas” por detrás da proibição.
É certo que a Sagres não poderia ancorar nem no local onde esteve a última vez nem no Porto Interior. Mas o chamado porto de águas profundas de Ká Hó terá capacidade para um navio com a tonelagem e o calado do navio-escola da Marinha portuguesa.
Mesmo que não tivesse, não seria de todo impossível que a Sagres ancorasse ao largo de Macau, um pouco antes da Ponte da Amizade, e que fosse disponibilizado um serviço de carreiras marítimas, para quem quisesse visitar o navio.
Também é óbvio que o ministério dos Negócios Estrangeiros e o ministério da Defesa, em Portugal, desafinaram bastante, na versão que deram aos jornalistas.
A primeira explicação, pela voz do comandante da Sagres, dizia que a recusa tinha a ver com um “imbróglio jurídico” e que a legislação de Macau não previa a visita de navios de guerra estrangeiros.
Mais tarde, o mesmo militar da Armada corrigiu ligeiramente esta versão, adiantando que a autorização não foi concedida “porque em Macau não é permitida a visita de navios de guerra por se tratar de uma região chinesa com autonomia”.
Para compor o ramalhete e ajudar à confusão, o embaixador de Portugal em Pequim veio a público com uma nova explicação: o Governo de Pequim alegou “falta de condições técnicas” do porto de Macau para o navio Sagres poder atracar.
Saliente-se aqui o pormenor de Macau ter mais do que um porto e o embaixador não referir se a tal falta de condições técnicas abrangia os quatro portos do território.
Já depois de esta nova versão ter sido divulgada, o ministério português da Defesa, através da assessora de Imprensa do ministro Santos Silva, insiste na sua versão, que não coincide com a do ministério dos Negócios Estrangeiros.
Segundo a informação que foi transmitida ao ministério da Defesa pelo ministério dos Negócios Estrangeiros, a “razão que foi apresentada é a de que navios militares não podem atracar em Macau, seja qual for a sua nacionalidade”.
Posto isto, resta acrescentar que a responsável pelas relações com a Imprensa do Comissariado do ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau referiu apenas que a resposta enviada ao governo português, em relação ao pedido de autorização para que a Sagres viesse a Macau, foi negativa, devido ao facto de “não haver condições”, em Macau, para aceitar a visita de navios de guerra estrangeiros.
Era conveniente que este episódio fosse clarificado, por ambas as partes. Sabemos que, quando se comete uma “gaffe” ou há um lapso, envolvendo governos, responsáveis políticos e funcionários, a tendência é para tentar estender o manto do silêncio sobre o assunto.
Não nos parece que seja a melhor solução, neste caso. Porque, sem mais explicações, ficará no ar – e na cabeça de muitas pessoas – a ideia de que a decisão de Pequim em não autorizar a visita do navio-escola português poderá ter a ver com “pruridos de nacionalismo”, talvez excessivos, parafraseando o deputado Leonel Alves, num debate na Assembleia Legislativa, onde a língua portuguesa foi atacada, por construir um obstáculo ao desenvolvimentos de Macau.
Será que o Governo chinês vetou a deslocação da Sagres a Macau, devido ao facto de o navio-escola ser um símbolo de Portugal e uma reminiscência de outros tempos, de quando as caravelas portuguesas chegaram a Macau, ocupando uma parte do território chinês e aqui permanecendo vários séculos, depois de impor um “tratado desigual” ao então enfraquecido império chinês?
É uma hipótese legítima, mas não gostaríamos que se confirmasse. Daí o apelo a ambos os governos para que esclareçam, sem margem para dúvidas, esta questão: quais são exactamente as condições de que Macau carece para que seja possível que a Sagres visite o território?

Paulo Reis, in 'Hoje Macau'

2 comentários:

zeparafuso disse...

Nada é de admirar, vindo dos chineses.

Guimaraes disse...

Desculpem lá, mas essa do "tratado desigual" não pega. Então meia dúzia de patuscos de um paízito a milhares de milhas ia impôr um tratado ao grande império da China?
Basta olhar para o mapa...
Deu-lhes muito jeito até 1999 e mais nada!