segunda-feira, julho 19, 2010

MARIA DE LURDES BORGES DE CASTRO - GENTE DA MINHA SAUDADE (2)














Maria de Lurdes Borges de Castro



> Casei com uma timorense que tinha 11 irmãos. Uma delas, tinha casado com Humberto Borges de Castro. Certo dia, o meu cunhado convidou-me para almoçar em sua casa, na Parede. Uma vivenda rústica, acolhedora e antiga que pertencia ao seu avô, por sinal um dos fundadores do Sporting Clube de Portugal e naquela data o sócio nº 1 do clube. Tive um grande prazer em conhecer o sportinguista vivo com mais antiguidade a torcer pelo meu clube. Naquela tarde, estava presente a sua filha Maria de Lurdes Borges de Castro, e naturalmente, mãe do meu cunhado Humberto. A empatia com a senhora foi total porque ambos gostamos de poesia. Mas ela, já tinha alguns livros publicados e ao longo dos muitos encontros que mantivemos dois temas foram sempre obrigatórios: o Sporting e a poesia.

Maria de Lurdes Borges de Castro é uma senhora encantadora, com uma cultura peculiar e uma força viva da natureza. Hoje, com 87 anos, é a mulher associada de um clube com mais anos de vivência. Não tenho a certeza se não é actualmente a sócio nº 1 do Sporting, mas andará por perto. Ainda hoje esta senhora vai ao Estádio de Alvalade gritar pelo seu Sporting.
Aqui vos deixo como homenagem a esta boa amiga, uma poesia de sua autoria.

RECORDAÇÃO

Quando eu era pequena
-- Nem mulher, nem criança: adolescente --
Sentia uma aversão forte e pungente
Por tudo o que era triste ou desse pena.
Não gostava de ouvir falar na morte
Nem de passar ao pé do cemitério:
A morte era pra mim grande mistério
E imaginava-a muito alta e forte...
Eu morava em Lisboa nessa altura
Mas tinha casa ao ano no Estoril,
E assim que começava o mês de Abril
Partíamos em busca de frescura.
Todo o fim de semana, sem excepção,
Ia toda a família descansar
Na pequenina casa à beira-mar:
Eu, meu Pai, minha mãe e o nosso cão.
O caminho mais rápido passava
Ao cemitério dos Prazeres; e eu
Para o não ver olhava para o céu
E para disfarçar ria e cantava...
Não era medo, não, o que eu sentia:
Eu era uma menina corajosa.
Mas nessa terra, triste e silenciosa,
Havia algo que eu não percebia.
Só hoje sei que essa aversão que eu tinha
Resultava da minha pouca idade:
Estuante de vida e mocidade
Achava a morte vil, feia e mesquinha...
Mas os anos correram e mudaram
Essa estranha maneira de sentir.
Hoje a recordação faz-me sorrir:
Foram já muito anos que passaram...

E quantas vezes eu fico a sonhar,
Num sonho sem calor, pungente e sério,
Que estou sozinha nesse cemitério
E que pra sempre lá quero ficar...


© jes

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