domingo, junho 20, 2010

DESAFIO (48)


Jorge Cabral*

JOSÉ SARAMAGO E O BASBAQUE

Acabo de chegar de uma curta vigília a José Saramago. Nunca tive intenção de o fazer porque apesar de me considerar no grupo dos dez mil portugueses que mais lêem, não gosto da literatura que produziu, nem sequer, simplesmente, do seu estilo, leia-se, forma de escrever. Também não perfilho nem nunca perfilhei nenhum dos princípios políticos enquanto paradigmas de um sistema preconizado pelo partido de que julgo ter feito parte em certa altura.

Fi-lo por remissão de faltas alheias e adiante voltarei a este assunto para o concretizar.

José Saramago foi dos nossos contemporâneos, talvez quem mais tenha dignificado Portugal ultimamente, sobretudo no espaço exterior às nossas fronteiras. Encheu muitos portugueses de orgulho enquanto a maioria dos que tinham o dever de o fazer os enchia de frustrações e de vergonha. Deu-lhes alento e mostrou-lhes que a confiança em si próprios não deveria ser palavra vã.

Como homem, foi um exemplo em muitas vertentes. Honestidade, frontalidade, autenticidade, verdade e coerência quanto baste. Foram só alguns dos atributos entre muitos outros, que rechearam o seu carácter.

Não sei se com, ou sem intenção premeditada, mas é indesmentível que José Saramago foi, na história recente deste País um grande homem que nesta medida trouxe benefícios imensos a Portugal e aqueceu os “corações” de muitas centenas de milhar de portugueses, constituindo uma boa referência, incontornável até para o enriquecimento do nosso património e consolidação do nosso futuro colectivo.

Poderia fazer esta singelíssima homenagem sem sequer aludir ao reconhecimento internacional que culminou com a atribuição Nobel, mas não quero fazê-lo porque este facto é a expressão e o testemunho inquestionável de que se trata de um vulto de dimensão mundial, muito significativo e que nos obriga a uma elementar diferenciação.

Não o fazermos indignifica-nos e mostra a verdade mesquinha que nos caracteriza. Como povo, devemos muito a José Saramago, gostemos dele, ou não e neste momento o mais elementar dever compele-nos a manifestar perante a sua memória a nossa profunda gratidão pelo cidadão que foi.

Por esta razão, entendo que lhe devamos todos, neste momento prestar uma homenagem que seja a expressão justa, apesar de simbólica, do nosso reconhecimento e gratidão a qual, deveria em primeiro lugar ser prestada pelo nosso Presidente, enquanto representante deste colectivo nacional.

Como tal, sempre esperei que nessa qualidade, assumisse, como é seu dever, tal posição. Não o fazendo, nunca ficaria de bem com a minha consciência se o não fizesse. A minha singelíssima homenagem foi só minha, insignificante, meramente pessoal, mas quis dizer-lhe em breves instantes e num monólogo instrospectivo quanto lhe estou grato pelo que fez.

Em consciência, fi-lo porque me senti a tal obrigado apesar de, com vergonha e indignação óbvias. Vergonha por ter colaborado na eleição de tão “provinciano” individuo, indignação, por constatar, desta triste forma, que apesar de mais de 30 anos de democracia ainda não atingimos o limiar mínimo de educação, nem ao nível do Presidenta da República, que fará nos outros patamares sociais.

Não vou aqui referir nada mais sobre este lastimável episódio. Já digeri muitas “raivas” que me consumiram nas últimas horas e estou certo que Cavaco colherá a breve prazo as consequências de tão vil e reles postura.

*Cronista residente

16 comentários:

a.marques disse...

Com sombras de pecado como todos os grandes.

Anónimo disse...

o comunismo deste Cabral é mal disfarçado. Cavaco fez muito bem em não estar presente no funeral. Saramago é igual a qualquer outro grande português mèdico, engenheiro, advogado ou analfabeto. E o presidente é obrigado a ir a todos os funerais? e quem é que tem vontade de homenagear pessoalmente quem o insultou várias vezes?
deixemo-nos de demagogias e sejamos realistas. se milhares de portugueses não foram ao funeral de Saramago por não gostarem dele porque haveria de ir o presidente quando sabe que a máquina comunista internacional esteve sempre por trás da propaganda ao Nobel?

Jorge Cabral disse...

E Deus? se existir... não está cheio de pecados também??? não é isso que está em causa, mas sim o contrário; o que fez bem; melhor do que qualquer um de nós. Isso tem que ser reconhecido por quem tiver os mínimos em educação e inteligência, para já não referir outros atributos que apesar de indispensáveis em qualquer sociedade, são assustadoramente escassos na nossa.

Jorge Cabral disse...

Caro Anónimo,
A sua primeira "bujarda" é digna de uma resposta igual à que Sócrates deu há dias a Louçã.
Trazer para este caso a pequenez das quezílias pessoas ou as conotações de índole politiqueira de baixo nível é paradigmático do estado lastimoso a que chegou este colectivo.
Devo dizer-lhe contudo que as minhas convicções anti-partidárias permanecem à prova de qualquer insulto gratuito que seja quem for, inconsciente da sua legítima liberdade ou direitos, queira dirigir-me, isto, para não referir ainda outros aspectos muito lamentáveis que o "meu amigo" não deixa transparecer, antes escarrapacha, desabridamente, num exercício de catarse muito mal percebido.

Jorge Cabral disse...

Caro Anónimo,
A sua primeira "bujarda" é digna de uma resposta igual à que Sócrates deu há dias a Louçã.
Trazer para este caso a pequenez das quezílias pessoais ou as conotações de índole politiqueira de baixo nível é paradigmático do estado lastimoso a que chegou este colectivo.
Devo dizer-lhe contudo que as minhas convicções anti-partidárias permanecem à prova de qualquer insulto gratuito que seja quem for, que, inconsciente da sua legítima liberdade ou direitos, queira dirigir-me, isto, para não referir ainda outros aspectos muito lamentáveis que o "meu amigo" não deixa transparecer, antes escarrapacha, desabridamente, num exercício de catarse muito mal percebido.

José Viegas (Boliqueime) disse...

Catarse? Porque será que os inimigos de Cavaco Silva, homem sério, falam todos da mesma maneira?

Anónimo disse...

MALDITO CAVACO SILVA!

Ao não comparecer no funeral de José Saramago, Cavaco Silva priva a esquerda apoiante de Manuel Alegre de lhe chamar hipócrita que apenas aparece por estar já em campanha eleitoral apesar de nem sequer ter ainda anunciado a sua recandidatura à Presidência da República.

Ao apelarrr, aos microfones da televisões, que o prrrresidente da Rrrrrepública fizesse sentirrr a sua prrresença no rrrrespeito que o último dia de José Saramago merrrece entrrre nós, Francisco Louçã denunciava essa frustração que lhe ia na alma.

Entretanto, em frente à CML onde o corpo do Nobel escritor aguarda no salão nobre em câmara ardente a hora do funeral, os abutres jornalistas parecem querer incinera-lo ali mesmo, numa fogueira de ódios que eles procuram alimentar com perguntas idiotas e pouco próprias para o momento, cada vez que alguma personalidade se aproxima para ir prestar os respeitos à família do defunto.

No blog Pré-Letrado

Jorge Cabral disse...

Ninguém é inimigo de Cavaco! Reconheço-lhe algumas qualidade e defeitos, quer como pessoa quer como 1º Ministro e agora, enquanto Presidente da Republica tem que sê-lo de todos, repito TODOS OS PORTUGUESES e no facto que aqui nos traz está tudo muito acima das querelas pessoais, dos interesses pessoais, dos oportunismos partidários e dos naseabundos jogos de bastidores pré-eleitorais. Cavaco teve a oportunidade de demonstrar que estava acima de toda essa porcaria e desempenhar as funções a que se acometeu por juramento de uma forma superior e incólume. Não o fez.
Mais de metade de Portugal o lamenta profundamente e só não o fazem os fundamentalistas do clubismo partidário que não tem sido mais que o coveiro deste país.

Fernando Torres disse...

Aqui está um tipo de pessoa (a que escreveu o post) com quem eu gostaria de me cruzar, pelo menos, uma vez por dia.

Anónimo disse...

O que o senhor Cabral queria e todos os Alegretes era que o Presidente fosse ao funeral para depois o insultarem de oportunista, falsário, eleitoralista, caça-votos e hipócrita. Cavaco é mais português que argelino.

a.marques disse...

Ainda hoje há jornais que embora sofisticadamente exercem a censura pura e dura. É consolador vêr neste espaço tão saudável diversidade de opiniões. Pontos de vista que aqui tem o seu lugar no respeito civilizado pela opinião alheia. O reconhecimento ao PPTAO pelas lições de elevação democrática que nos proporciona.

joãoeduardoseverino disse...

Caro A. Marques

Sensibilisadamente agradeço as suas palavras. Aqui vivo um pouco do que sempre pratiquei. Mas paguei muito caro pela defesa da liberdade de expressão.

Jorge Cabral disse...

Caro Fernando Torres,
Existo e nunca andei escondido. Quando quiser cruzar-se comigo, saiba que terei prazer equivalente, professe o senhor os credos que professar e simpatize politicamente com quem quiser. Para mim basta-me que seja, sério e inteligente.

Caro Anónimo,
Não tenho nenhuma admiração por quem se limita a rotular sem qualquer base, conteúdo ou inteligibilidade; muitas vezes são só palavras ocas e fáceis, que só pretendem obnubilar o que lhes subjaz, ou seja, uma ausência total de ideias inteligíveis, explicáveis e com sentido para todos.
Comparar a morte de um Prémio Nobel, num país com a realidade social e cultural do nosso, com eventuais aproveitamentos comezinhos de medíocres eunucos como o são todos os que se aproveitam de tudo e de todos para atribuir, em seu benefício, sentidos enviesados, designadamente de acções nobres, é algo que não me apetece comentar. Já tenho que suportar, em demasia, as consequências da ignorância, da mediocridade, da estupidez e das características mesquinhas que infelizmente por aí proliferam, para que me sobre alguma pachorra para o suportar.
Mas talvez seja tempo, de quem acorre às urnas a colocar clubisticamente o seu voto, procure no recôndito de si próprio se acha que aquilo para que tem contribuído está de acordo com os seus mais elementares anseios de cidadão.

Anónimo disse...

Cabral tem razão. Eu não gosto de Saramago porque nunca gostei nem nunca me interessei pelos seus livros. Sou anti-comunista mas Cavaco tinha a obrigação de ter transformado o funeral num acontecimento de Estado onde todos os portugueses sentissem que Saramago enalteceu e engrandeceu o nome de Portugal.

Anónimo disse...

Meu caro Jorge Cabral: É reconfortante perceber que ainda há cabeças que pensam por si próprias, sem alinhamentos submissos e sem medo de serem etiquetadas de um qualquer "ista" à laia de insulto. É evidente que o pequeno Cavaco se encolheu mas, ao mesmo tempo, jogou também a cartazita eleitoral ao contentar uns quantos milhares de primários anti qualquer-coisa. Continue JC porque a cidadania faz-se agindo com "pensar sério" como você vem demonstrando.

Jorge Cabral disse...

Pois é Caro Anónimo, mas eu não posso deixar de lamentar que o Presidente da República paute a sua conduta em função de duvidosas, comezinhas e condenáveis jogadas eleitoralescas.
Para mim Cavaco passou a ser mais um medíocre que de facto só sabe dizer banalidades marcadamente desinteressantes e sem qualquer dimensão.
Exige-se muito mais de um Presidente da República. "Chicos- cortiça", já os tivemos de sobra.
E já agora, em resposta a um comentador que falava da sua honestidade, só tenho a dizer que o Salazar também era honesto. Mais, foi no tempo do SEU Governo que se roubou escandalosamente neste país, designadamente aquando da utilização dos fundos comunitários destinados à formação. Honestidade também seria, na posição em que estava, tomar todas as medidas para evitar isto. Não tomou nenhuma.
Todavia, também eu penso que é incapaz de se aproveitar de alguma coisa pública em estrito proveito próprio, nisso estamos de acordo.