terça-feira, maio 04, 2010

RETRATOS (2)




Catarina Price*






Sentada no restaurante, à espera do bife grelhado, só com salada por favor, olho em redor com alguma atenção.
Ali à direita um casal que se adivinha ilegal num discussão em surdina sobre que digo eu à minha mulher .. Dá-me uma ideia! (apeteceu-me aconselhar o incauto sobre esse tipo de perguntas e explicar-lhe tintin por tintin o que quer uma mulher ouvir quando o seu homem deixa de gostar dela, mas, obviamente que me abstive)) .. Mais adiante um grupo de rapazolas com livros dispersos pela mesa, cotovelos apoiados, cavaqueiam e depenicam uma travessa de batatas fritas .. À esquerda uma mãe jovem com uma criança pequena, esforça-se para que coma um enorme prato de sopa, sem pingos nos calções, num chega-te para a frente que o pequeno rabeia atirando sopa, pão e o que mais esteja na frente, propositadamente para o chão .. O olhar da mãe é aflito, na tentativa de chamar a atenção da empregada com um pano, por favor ..!
Tenho esta mania, que fazer? A ausência de companhia é quase propositada nas pausas que me concedo e ao fim e ao cabo, que melhor companhia que as vidas que correm esbatidas?

Reparei assim facilmente na sua chegada .. Lenço na cabeça como me lembro que andavam as mulheres na terra de meu Pai, com penteados perfeitos de compridos cabelos bem amarrados, saia comprida, quase até ao chão, camisa florida mas em tons tristes e desbotados, usada mas perfeita de asseio e de ferro de engomar utilizado com afinco.
Olhar atento pelo balcão, ar de pouco conforto na procura de uma mesa escondida, perto de uma porta de preferência, discreta, para que não dê nas vistas.
Admirei-lhe o ar decidido com que atravessou a pequena sala, alheia e indiferente aos olhares curiosos com que a brindam os rapazolas, passo firme e saia num fru fru a rasar o chão. Passou-me ao lado e senti-lhe o cheiro a tremoceiros e pé de oliveira, vi-lhe as mãos escuras, tisnadas, enrugadas do trabalho, os olhos fitos na parede em frente numa tentativa de que a sua atenção não seja desperta por nada que a faça virar a cabeça.


Sentou-se na mesa detrás. Ouvi-a afastar a cadeira e a saia, sentar-se, e à empregada que acorreu rápida e solícita, quem sabe para minorar o sofrimento” da observação no meio de anónimos (não o somos todos?) .. pedir: uma sopa .. e a garrafa de azeite, se fizer o favor, menina ..
Sorri.

Típico.


Ao apanhar-me do chão a carteira teimosa que caía pela segunda vez, mania de a dependurar na costas da cadeira, proferi um Bem-haja e vi abrir-se um sorriso luminoso e um brilho a seara madura nos olhos .. da Beira, menina? .. Também .. :)


*Cronista residente


4 comentários:

Anónimo disse...

há muito que não a lia. obrigado por este texto tão cativante quanto humano. comoveu-me poprque sou da beira.

Jorge Cabral disse...

eu como já sou híbrido, permito-me um
"Oi Catarina! Bem haja," lololo

ana buisel disse...

Gosto muito mais dos Retratos do que O Sexto Sentido que anteriormente escreveu. Beijo

CPrice disse...

Anónimo .. e quem se deixa amar pela Beira sente dessa forma :) Obrigada

Jorge, há quanto tempo ! ;))

Obrigada de novo Ana :))