segunda-feira, maio 10, 2010

MACAU: QUANDO OS MILHÕES DO JOGO NÃO CHEGAM AO HOSPITAL QUE É UMA GRANDE MERDA

> Em Macau, os milhões de patacas oriundos do jogo não servem para que o governo tenha um mínimo de dignidade e de respeito pelos seus governados. Isabel Abreu, residente em Macau, viu morrer-lhe o marido Humberto Pinto Fernandes Abreu, ex-colaborador deste blogue, em condições chocantes e revoltantes. Um texto que gela os ossos a qualquer humano. Um texto que obrigaria, no mínimo, à demissão do secretário para a Saúde do governo da RAEM.
Aqui fica o testemunho corajoso de Isabel Abreu:

Este é para ti, meu amor

Dois meses e meio passaram sobre a morte do Humberto. Não é fácil acordar, viver e deitar na ausência de alguém que partilhou a minha vida durante 12 anos.

O Humberto sempre foi um enigma renovado diariamente, um desafio permanente e um descanso e alegria totais pela filosofia de vida que tinha, pela solidariedade, pela inteligência, pelo inesperado. Quem com ele de perto conviveu, sabe bem a que me refiro.

Estas linhas são a ele dedicadas e a todos quantos possam beneficiar do seu teor. Cada um fará a sua leitura.

Dia 25 de Fevereiro de 2010, entro com o Humberto nas urgências do Centro Hospitalar Conde São Januário, por volta das 11 da manhã. A luta do costume, a espera do costume, a confusão do costume, o barulho ensurdecedor do costume, a desorganização do costume, a porcaria do costume.

Dada a gravidade dos sintomas, tentei interceder junto de um clínico, de nacionalidade portuguesa, que estava nas urgências, mas que me respondeu estar ocupado e que os colegas tratariam do caso.

Finalmente atendido por um qualquer outro clínico de serviço, foi iniciado o processo com o pedido das básicas análises de sangue e urina, bem como RX e Ultra-som. As horas foram passando, os turnos iam mudando, ou assim parecia, e por volta das 5 ou 6 da tarde, depois de muita insistência da minha parte, consigo chegar à fala com um outro qualquer clínico de serviço que, depois de consultar o computador, responde em inglês macarrónico que ainda não tinham chegado os resultados da análise ao sangue. Não me parecendo normal a situação, exigi que falasse com quem entendesse, mas que queria saber o que se passava. Telefonema para aqui, telefonema para ali, e a resposta sai textualmente «they check again, maybe leukemia». Assim, na bochecha, sem mais delongas.

Reagi como qualquer mortal reagiria a uma tirada destas, assim, a seco, ali no meio da confusão. Alguém, confesso não me lembrar quem, veio pôr água na fervura e aconselhou ir até casa, que depois ligariam com os resultados finais.

Por volta das sete e tal da noite chamaram para regressar ao hospital. A confirmação veio pela voz do clínico que havia recusado assistência de manhã, ali, no meio da confusão. Era leucemia mieloblástica agressiva. Internamento imediato, num quarto isolado adjunto ao SO, dada a falta de defesas do organismo para combater o que quer que fosse. Nunca mais vi esse clínico, nem depois da morte do Humberto. Vi outros, muitos, todos indiferentes à gravidade da situação.

Dia 26 as coisas começam a complicar-se e o estado de saúde do Humberto a decair a olhos vistos. Um inferno, aquele quarto, onde o barulho era uma constante, apesar dos muitos letreiros espalhados pelos corredores a recomendar silêncio. As serventes aos gritos de um lado, a atirar com as arrastadeiras e afins, as enfermeiras aos gritos do outro, um cenário surrealista. Pedi várias vezes, até de joelhos, que se contivessem, mas sem sucesso.

A páginas tantas, entra quarto adentro um amanuense qualquer, dizendo, textualmente, «go up stairs pay money». Perante a debilidade do Humberto, respondo que iria logo que possível. Não era o caso de ele se levantar e fugir do hospital sem pagar, para além de que era residente permanente de Macau, cá vivendo há 28 anos. Cinco minutos depois, vem outro amanuense, no caso uma senhora, das poucas que sentiu a preocupação dos familiares e que, muito gentilmente, com uma declaração na mão, me informa que o Humberto tem direito a assistência gratuita. Que me dirigisse, na segunda-feira seguinte, ao rés-do-chão, munida do BIR e fotografia para que fosse processado o respectivo cartão.

Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, e perante a situação que se agravava a cada minuto, em presença do Jorge, o irmão do Humberto, falei com um hematologista, português, ali, no corredor, sem quaisquer condições, sem qualquer dignidade, que explicou, finalmente, qual o tipo de leucemia que o Humberto tinha, bem como o plano terapêutico a seguir. Olhos nos olhos, perguntei o que podia esperar. Não me foi dada uma resposta concreta. Desapareceu, nunca mais o vi.

Compreendo que os médicos não sejam bruxos. Já não compreendo que, com tantos anos de experiência, não saibam avaliar a gravidade de um caso como o do Humberto. Não compreendo que ninguém estivesse disponível para o acompanhar permanentemente, ininterruptamente.

Quem lá esteve fui eu, e o Jorge, e a Irene, e a Loly, e o Hélder e os amigos, a dar apoio, a apanhar os vómitos, a consolar, a aconchegar. Nem quando os vómitos começaram a ser de sangue, alguém me soube dizer se era assim, se era normal no caso dele. Corri aquele maldito hospital de cima para baixo e de baixo para cima, implorei que me dessem uma resposta. Nada. Ninguém quis saber. Nem o clínico que assistia o Humberto num problema de saúde que o tinha afectado uns anos antes, que abordei no SO, e que me virou as costas sem uma palavra.

Cerca da meia-noite dizem-me que o vão levar para um quarto no segundo andar. Lá fomos e, depois de andar com a cama de elevador em elevador e em diferentes andares, chegamos a uma enfermaria onde estavam já dois pacientes. Refiro a questão do isolamento e da vulnerabilidade do Humberto. Não interessava, porque não há quartos e até dão a entender que é um favor que estão a fazer em tê-lo ali.

Seis, repito seis, entre enfermeiros e ajudantes, demoraram cerca de 10 minutos para o mudarem de uma cama para outra, não antes de me perguntarem se ele não podia passar sozinho. Nem queria acreditar no que estava a ouvir. A passagem foi feita de tal modo que rebentaram com as ligações do soro, provocando uma hemorragia, dado o nível praticamente inexistente de plaquetas no sangue e falta de coagulação. A aflição foi muita e a preocupação era que eu não estivesse a ver, insistindo sempre que esperasse fora da enfermaria. Reposta a parafernália, sempre a mandarem-se sair do quarto, dizem-me que não posso ficar com ele.

Novamente imploro que me deixem ficar, refiro que o médico que tinha estado de serviço até à meia-noite me tinha dito que sim. Pois, mas não assinou o papel que, pelos vistos, ali, é mais importante do que a vida de uma pessoa.

E, menciono a minha angústia, depois de ter passado, na urgência, por cenas caricatas, onde, por exemplo, chegaram a estar cinco urinóis utilizados, alinhados no chão, à espera que alguém os viesse recolher. Onde, por mais que os monitores apitassem, assim ou assado, ninguém ia conferir o que se passava. Onde, até os sacos para vomitar eram racionados, e por aí fora. Resposta pronta, em língua macarrónica, «aqui somos todos profissionais», Viu-se.

Dada a posição de irredutibilidade, e as portas cheias de códigos de segurança, imploro que, à menor alteração, me liguem. E assim foi, ainda não eram sete horas da manhã, dizendo-me, «Sinhor não está bem». Voei para o hospital, mas, o conceito de não estar bem, pelos vistos, naquele hospital, é estar morto. Ainda assisti a uma massagem cardíaca, manual, como se estivéssemos num outro qualquer local, que não num centro hospitalar.

Hoje, à distância de cerca de dois meses e meio, pergunto e exijo que me respondam:

Porque razão não havia um desfibrilador ao pé dele?

Porque razão puseram o Humberto numa enfermaria, pelos vistos sem o mínimo de equipamento de emergência?

Porque não o levaram para os cuidados intensivos?

Porque razão não me deixaram lá ficar?

Porque são desumanos?

Uma coisa é certa. Enquanto for viva, a minha convicção é a de que se alguém lá estivesse, ainda que não fosse eu, e tivesse dado o alarme, o Humberto estaria vivo e a fazer a quimioterapia conforme estava planeado.

Acima de tudo, nunca lhes perdoarei o facto de não ter podido estar com o Humberto nas últimas horas de vida. É uma sombra que os malditos serviços de saúde de Macau colocaram na minha vida, para o resto dos meus dias.

Curiosamente, no dia 29 de Abril de 2010, dois meses e dois dias após a morte do Humberto, recebo, pelo correio, uma carta dos Serviços de Saúde do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, dirigida «ParaP F ABREU, HUMBERTO H Familiar», contendo uma folha de papel A5 dobrada ao meio com os seguintes dizeres:

«ParaP F ABREU, HUMBERTO H Familiar

Desejamos exprimir as nossas mais profundas condolências pela perda do seu ente querido. Possa o tempo aliviar a sua dor e sarar as suas feridas.

Centro Hospitalar C. S. Januario - Unidade Associada»

Sem qualquer assinatura.

Agradeço e não aceito.

Teria agradecido se tivessem sido profissionais.

Teria agradecido se tivessem tratado do Humberto com atenção, com dedicação, com cuidado e com humanidade.

Teria agradecido terem-me chamado quando ainda teria podido confortá-lo na sua passagem.

Teria agradecido se tivessem sido coerentes e não tivessem, mais uma vez, após a morte do Humberto, e para o libertarem do hospital, voltado a insistir no pagamento de uma conta.

Teria agradecido, muitíssimo. Assim, considero esta atitude uma afronta ao Humberto, à sua memória, a mim e aos restantes familiares.

Não posso terminar esta homenagem ao Humberto sem falar do sítio onde ele tenta repousar, o Cemitério de Coloane. Todas as semanas lá vou, em dias diferentes, a horas diferentes. Invariavelmente, sou confrontada com o desrespeito de uma carreira de tiro, ali ao lado. Os disparos são constantes, desde os mais discretos, até aos que parecem de canhão.

Não aceito, de forma alguma, que até na morte não haja paz e descanso. Nem para os que lá estão, nem para os que lá vão prestar a sua homenagem e que tentam passar alguns minutos, ou horas, em reflexão e recolhimento com os seus mortos.

Em Macau, não basta aturar em vida o barulho das intermináveis obras nos prédios de habitação, nos escritórios, nas ruas, nos hospitais. Não basta aturar os pianos, as televisões, os mahjongs, os sistemas de som dos vizinhos, a todas as horas, a qualquer hora.

Em Macau, mesmo na morte, o desassossego continua com rondas de disparos que não são de honra.

Este é para ti, meu amor. Isabel

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