quarta-feira, abril 28, 2010

MACAU - ESTRADA DO MUNDO














Para editar em livro quando for possível



INTRODUÇÃO


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Após o golpe de Estado em 25 de Abril de 1974 que levou Portugal a assumir uma postura diferente relativamente às suas colónias, Macau ficou em alvoroço com duas vertentes políticas a degladiarem-se. Por um lado, o ilustre advogado Carlos d'Assumpção e seus apoiantes defendiam que Macau deveria manter-se sob a soberania portuguesa, pois tratava-se de uma "oferta" que a China tinha feito a Portugal. Por outro, um grupo de "vendilhões de templo" preconizou junto do Movimento das Forças Armadas (MFA) que Macau fosse imediatamente entregue à China.


No meio da discórdia, prevaleceu naturalmente o dogmatismo dos dois Estados e logo que a China entendeu manifestar a sua posição, introduziu o tema junto do Presidente da República, general Ramalho Eanes. Numa visita oficial realizada entre 21 e 26 de Maio de 1985, Ramalho Eanes acompanhado do ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, ouviu da boca do líder chinês Deng Xiaoping que a transição de Macau se faria a breve trecho. O recado estava dado. O anúncio das intenções da China deixou os portugueses de Macau perplexos, apreensivos e chocados. Mas nada havia a fazer. Estávamos perante uma verdadeira história entre David e Golias. O processo de transição era irreversível e os portugueses teriam de regressar a casa.

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Numa tarde, húmida e quentíssima de Agosto de 1986, dei comigo junto à praia de Cheoc Van, na ilha de Coloane, fixando o horizonte. Chovia torrencialmente e eu nem me apercebera do facto. Quando limpei a face e tentei enxugar os cabelos é que me dei conta que o meu pensamento acabara de estar tão absorvente e tão longínquo que nem um tufão me faria acordar para a realidade. Estava a regressar a casa, por terra, como aventureiro, por montes e vales, rios e lagos, desconhecidos, inimagináveis, mas possíveis. Naquela tarde junto ao mar, com o olhar fixo nas ondas, dei por mim a percorrer a distância entre Macau e Lisboa... ufa! que algo de infinito. Quando cheguei a casa fui consultar um atlas e o pensamento da praia traduziu-se num sentimento de quase impossibilidade. Atravessar o Império do Meio, com os seus povos tão distintos, com as suas dezenas de províncias, com o seu deserto do Gobi, com a sua parte dos Himalaias, com localidades sem alojamento, sem comunicações, com um Partido Comunista que liderava o país com mãos de ferro e encerrando o território a estrangeiros, especialmente a jornalistas. Naquele segundo, pensei esquecer o sonho para no segundo seguinte continuar a consultar o mapa a fim de constatar qual seria o caminho mais curto e menos penoso para chegar a Portugal. A ideia de simbolizar o regresso por terra dos portugueses que por mar heroicamente chegaram a Macau ficou logo ali congelada no cantinho mais recôndito do cérebro. As dificuldades pareciam inultrapassáveis.

Passado algum tempo, a conversar com o professor João Queiroga, este transmitiu-me que também andava a pensar numa expedição que unisse Macau a Lisboa. Era o início da maior aventura jamais realizada por todo-o-terreno. A partir daquele momento começámos a projectar o desejo. Formar uma equipa unicamente com residentes de Macau, estudar o trajecto, orçamentar, solicitar autorizações diplomáticas, obter fundos de apoio e conseguir veículos que não ficassem destroçados pelo caminho. A partir do dia em que eu, João Queiroga e o jurista Jorge Barra decidimos avançar com o projecto, o sonho começou a tornar-se realidade.
Primeira decisão: a equipa teria de ser constituída por portugueses nascidos no Continente e portugueses e chineses nascidos em Macau. Ao nosso grupo juntou-se o arquitecto macaense Carlos Marreiros, uma ajuda importantíssima para toda a logística e contactos necessários para um projecto desta envergadura. Carlos Marreiros viria a conceder-nos o total empenhamento, mas por motivos pessoais não realizaria a expedição. À equipa juntar-se-ia o médico Vitalino de Carvalho, o operador de televião José Babaroca e os mecânicos Mok Wa Hoi e João Santos.

À data, o governador de Macau era o engenheiro Carlos Melancia. Um homem empreendedor, virado para o desenvolvimento e progresso de Macau e empenhado na promoção do território além-fronteiras, que acabou por ser injustiçado por motivos político-económicos relacionados com a construção do aeroporto de Macau.
Carlos Melancia tomou conhecimento da nossa ideia e do simbolismo que encerrava. Por ele, o projecto nunca ficaria no papel e dispensou-nos de imediato diversas facilidades. Transmitimos ao governador que várias marcas de automóveis [com quem tínhamos contactado no sentido de solicitar três jipes para a expedição] tinham rejeitado a nossa pretensão com receio do prestígio das marcas ser abalado pelo inêxito da maratona. Carlos Melancia respondeu-nos que os proprietários da marca UMM, em Portugal, eram das suas relações e que iria falar com eles. Passados três meses chegaram a Macau três jipes UMM preparados para a aventura a que nos propusemos.


A partir do momento em que ficou constituída a equipa para o I RAID TERRESTRE MACAU-LISBOA e os três jipes UMM chegaram a Macau, o projecto transformou-se em algo de muito sério, complexo e diversificado. Os elementos que faziam parte da equipa teriam de se compenetrar que a expedição inseria diversas vertentes, nomeadamente, um trajecto muito duro e perigoso; um percurso desconhecido que atravessaria a China, Paquistão, Irão, Turquia, Bulgária, Jugoslávia, Itália, França, Espanha e Portugal; mais de 20 mil quilómetros num período que ultrapassaria os 50 dias; uma disponibilidade total para o sacrifício e para o entendimento entre todos os membros; um confronto total e contínuo com a velocidade, destreza e coragem; uma diplomacia instintiva no contacto com povos e autoridades tão distintas e, acima de tudo, o engrandecimento e promoção do nome de Macau.

Após a confirmação de que estávamos perante uma equipa forte e coesa para enfrentar o desconhecido, os sete "pilotos" iniciaram um vasto rol de contactos absolutamente necessários referentes a autorizações diplomáticas, recolha de fundos, materiais de diversa ordem e uma indispensável preparação física e mecânica no contacto directo com os veículos.

Um dos aspectos mais difíceis de solucionar situou-se na autorização que os responsáveis políticos da República Popular da China teriam de conceder aos raidistas para atravessar o imenso território chinês. Em 1988, seria a primeira vez que cidadãos estrangeiros iriam conduzir um veículo estrangeiro em solo chinês. Este pormenor merece uma referência de destaque, pois, tinha sido algo impensável até aquela data. Mais uma vez, o governador de Macau, Carlos Melancia, teve um papel de grande importância na sensibilização das autoridades chinesas e o nosso grupo só respirou fundo no dia em que fomos recebidos na delegação oficial da RPC, em Macau, a 'Nam Kwong' pelo seu presidente, O Cheng Peng. Era a luz verde para a primeira grande dificuldade ser ultrapassada. Da reunião cordial e empreendedora ficou assente que teríamos de contribuir com uma determinada quantia pecuniária para o Instituto do Desporta da RPC. Ao fim e ao cabo, uma verba que serviu de contrapartida a todo um acompanhamento logístico e móvel que tivemos durante o trajecto em território chinês.

As nossas reuniões sucederam-se. Havia sempre algo de novo para resolver. João Queiroga e Jorge Barra dedicaram-se à organização da expedição com fervor e sabedoria. Eu realizava os contactos com patrocinadores e estudava a reacção dos veículos UMM. O mecânico Mok Va Hoi apreendia os segredos de uma mecânica até ali desconhecida. Os jipes vinham equipados com motor Peugeot e tínhamos solicitado a retirada do turbo. A nossa saúde estava entregue a um dos melhores clínicos residentes em Macau. Vitalino de Carvalho, especializado em Urologia, bem teve de se preparar para toda e qualquer anomalia que se verificasse no estado de saúde dos raidistas durante a expedição. José Babaroca, o macaense que se tornou na Televisão de Macau um dos melhores operades de câmara e que recolheria o maior número possível de imagens. João Santos foi-nos indicado pela UMM por ser um dos melhores técnicos da marca. Com ele no Raid, dificilmente não chegaríamos a Lisboa.
No entanto, muitos foram os epítetos de que fomos contemplados. "Vocês são doidos!", "Vocês não sabem no que se estão a meter!", "Tenho a certeza que não chegam ao fim!", "A vossa ideia é criminosa porque é quase certo que morrem alguns!", foram exemplos do "alento" que algumas pessoas nos dispensaram. A decisão era inabalável e a ansiedade aumentava em cada dia que passava.

Entretanto, a data da partida foi escolhida com muita antecedência em conformidade com dois aspectos fundamentais: primeiro, a passagem nos Himalaias, a mais de 5.500 metros de altitude, teria de aguardar pelo mês de Maio, altura em que o degelo já teria o seu início e a via rodoviária estaria minimamente transponível e, em segundo lugar, o governador Carlos Melancia tinha transmitido ao grupo que no caso de conseguirmos chegar a Lisboa antes do Dia 10 de Junho, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, seríamos os representantes de Macau na respectiva cerimónia oficial. O dia da partida recaíu em 17 de Abril. Pelas nossas contas, a rolar sempre nos limites, o Raid poderia ser realizado em 40 dias. Contando com os imponderáveis poderia culminar em cerca de 50 dias.

O treino na condução dos jipes começou a ser um acontecimento em Macau, a partir do dia em que Victor Hugo Marreiros, um dos melhores designers da Ásia, criou a decoração das viaturas e as cores da bandeira portuguesa passaram a fazer parte do corpo móvel dos UMM. Por onde os carros passavam, a população do território interrogava-se. Era importante que se iniciasse a divulgação e promoção do I RAID TERRESTRE MACAU-LISBOA. Para o efeito, preparámos e realizámos a primeira conferência de imprensa, durante a qual era importante divulgar ao mundo quem eram os aventureiros e a que se propunham.

(Irei continuar a escrever para um livro futuro com cerca de 400 páginas, com mais de 100 fotografias, as histórias de um trajecto inimaginável que atravessou a dureza da China, a guerra entre o Iraque e o Irão, a guerra dos moujhaedin na fronteira Paquistão-Afeganistão, o controlo absurdo das polícias búlgaras e turcas, a diversidade de uma Jugoslávia que já se desmembrou e a beleza paisagística e patrimonial de Itália, França e Espanha)

© jes 2010


4 comentários:

manuel gouveia disse...

Grande expedição. Talvez os sonhos possíveis sejam aqueles que nunca nos atrevemos a sonhar...

f.r.m. disse...

força, joão. sei que consegues tudo com que sonhas. sempre foste o meu ídolo.

C.M. disse...

Duvido sinceramente que alguma editora esteja interessada nisto.

Zé Martins disse...

Oi João e eu que estava em Macau!!!
Que belos tempos!
Estavamos, novos,porreirinhos e Macau era agradável viver-se por lá!
Bebiam-se uns copos, faziam-se uns engates à maneira a 200 patacas à hora...
Fica-te bem recordares o passado que ajuda a viver.
Abração de Banguecoque
Zé Martins