terça-feira, março 02, 2010

OS AMIGOS NUNCA SE ESQUECEM

O profundo silêncio da revolta

Para Humberto

> Perder um amigo dado à morte é sentirmos fugir, irremediavelmente, o pensamento; é olharmos para o horizonte do infinito e estarmos cegos àquela grandeza.

A primeira vez que um amigo partiu não soube explicar, não acreditei, fiquei confuso, nem sabia se o tinha perdido ou não. O tempo vai passando e alguns dos grandes amigos também. Fico com um medo terrível de ficar sozinho, não quero. Por vezes, a amizade chega de um salto, de um movimento quantas vezes inesperado e descontínuo; a partida definitiva dessa amizade é um disparo mortal, é um roubo gravíssimo de muitos dos nossos melhores momentos de felicidade.

Deste terreno lugar de exílio passageiro onde ainda nos encontramos na louca representação de estarmos vivos, o maior mistério da vida, que é a morte, parece não ser coisa séria suficiente. Continuamos com as nossas sôfregas pressas e as nossas preces aparentemente mudas. Na derradeira despedida de um amigo, só desejamos flores e frutos da árvore que já está nua, mas não vemos.

Perder um amigo dado à morte é sentir um estranho e profundo silêncio; é não querer nem conseguir imaginar o resto da nossa vida sem aquela amizade; é o céu que ficou cinza, são as folhas caídas de todas as árvores do mundo. Sem podermos emendar, sem podermos evitar nada, sem podermos conter o pedaço de nós que também morre.

Como é tudo tão efeméro, Humberto; como tudo passou tão rápido neste quarto de século de amizade cúmplice. Afinal foram breves as nossas longas e curtas viagens de conversa sem fim, de férias passadas juntos, aniversários, passagens de ano, sozinhos e com os nossos amigos ou familiares. Os teus cozinhados únicos, de luxuosa simplicidade; a tua habilidade genial para consertar ou aperfeiçoar tudo e mais alguma coisa dentro duma casa; a forma gentilmente suave como organizavas todas as etapas num restaurante; a simplicidade sábia com que falavas das coisas da vida e da arte que mais amavas, a fotografia; o teu fabuloso, inteligente e único sentido de humor reflectido pelos jornais, pela rádio, nas tertúlias; a tua ironia certeira, sem mácula. Sempre como um Príncipe.

Vezes sem conta te falei que eras um tipo cheio de virtudes; devia ter ficado escrito antes e não agora, para me sorrir vendo-te um bocado atrapalhado, que era talvez a única coisa que verdadeiramente te confundia, as palavras de louvor. Eras, elegantemente, mas eras mesmo, contra panegíricos viessem eles donde viessem e fosse qual fosse o destinatário.

Depois, Humberto, a tua generosidade elegante e enorme, discreta como tu, confidente como tu, solidária como tu. Foste um homem de amar e morreste, quase de repente, amando – a tua Isabel, os teus filhos, os teus amigos. No domingo, ao fim da tarde, dormias tu, sereno, de sorriso nos lábios, ali na nossa frente, o Marcos e o Zico tocaram e cantaram para ti, que tanto gostavas de os incentivar. Foi tão bonito, Humberto, que emoção.

Ontem não pude ir até Coloane ver onde repousas que bem mereces. Estive na rádio como que à espera que fizesses mais um dos teus imprevistos apontamentos cheios de humanismo,onde também deixavas fluir a tua saborosa ironia, fosse nos simples passatempos ou nas perguntas que gostavas de colocar, pelo telefone, aos convidados em estúdio, ou nas certeiras observações que fazias, retratos que nos contavas sobre o quotidiano de Macau. Tudo com a tua infinita generosidade. Que nunca mais voltaremos a receber.

Brindarei sempre por ti, Humberto! E a ti.

2. É revoltante aquilo em que se transformou o Hospital oficial. Com tantos profissionais competentíssimos, deu-se guarida a gente que nada tem a ver com aquele tipo de serviços. Gentinha impreparada, sem cultura hospitalar, sem organização, sem humanidade, fria, incompetente, arrogante; e com gravíssimos conceitos sobre higiene. O que se passa? Que Macau é esta? Como deixamos que isto aconteça? Sei bem o que os heróicos profissionais que ali dedicam grande parte da vida, sofrem com o estado de sítio a que alguns sectores chegaram. Os senhores e senhoras dos centros de decisão, mais os seus familiares, em vez de se socorrerem de tratamento hospitalar privado e fora de Macau, deviam experimentar em situação urgente, sem aviso prévio, como cidadãos anónimos, optarem, por uma vez, pelo Hospital oficial. Assim, rigorosamente nesta situação. Sem truques. Por certo que alguma coisa iria mudar.

E como é possível, por entre aquele caos ensurdecedor das urgências, surgirem sujeitinhos a venderem funerais ao “preço mínimo de 31 mil patacas sem direito a caixão”? Quando é que a cultura de Macau, a boa tradição macaense, a Macau governada pelas nossas gentes, a RAEM resplandecente, exuberante, orgulhosa e rica, dá definitivamente cabo destes malditos abutres dos vivos e dos mortos?

Helder Fernando, in 'Hoje Macau'

3 comentários:

El Comandante disse...

Que Macau é esta? É a Macau dos casineiros que enche os bolsos a muito boa gente.
Infelizmente tudo nesta terra se resume a milhões que foram roubando a alma desta cidade.

Anónimo disse...

El Comandante

"boa gente" ou mafiosos corruptos?

El Comandante disse...

Anónimo, claramente a segunda opção. Muito boa gente foi uma forma de expressão.