segunda-feira, março 01, 2010

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*






Outro Conto Solto

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Ninguém sabe muito bem de onde vieram.

Apareceram no bairro há coisa de uns três ou quatro anos, de apartamento comprado ali para os lados da avenida. A mãe, Matilde, comprou um dos bungalow de madeira em frente ao maior liceu do concelho e transformou-o em algo que, de tabuleta discreta por cima da porta, anuncia Café com Letras. É um espaço arejado, bem decorado, cheio de prateleiras imensas onde repousam obras antigas e bem encadernadas que competem em linha horizontal com manuais escolares de todos os anos e computadores espalhados em pequenas mesas. Por detrás do balcão aguarda-nos um sorriso sereno num rosto marcado por uma vida que, assim de relance, se adivinha ter sido penosa. Não pelas rugas praticamente inexistentes, nem pela forma de andar ou falar, mas pelos olhos. São lagos de lágrimas secas aqueles olhos. Alguns cabelos brancos espreitam, bem amarrados numa fita de cor, e o avental verde-claro, de traçado e meio, tapa-lhe a roupa deixando apenas de fora um calçado elegante. O filho mais novo trabalha no espaço. Dá explicações, à borla, à miudagem. E o que esta o admira. É um rapaz muito bonito, com os traços delicados que herdou da mãe em conjunto com uma irreverência própria da idade, modos algo antiquados de tão gentil, e grandes olhos verde-escuro, tão escuro como a floresta em dias de inverno, expressivos e a inspirar confiança. Ilimitada. Parece que tenho um fraquinho por ele não é? E tenho mesmo!!


Sabe-se que há mais dois filhos. A mais velha chama-se Marta, é formada em medicina a trabalhar com os Médicos sem Fronteiras, actualmente em África. O rosto de Matilde ilumina-se de cada vez que recebe um postal, um telegrama, uma pequena missiva que lhe traga notícias. Cola-os a todos num quadro de cortiça num canto da sala do café e explica aos curiosos onde está a sua mais que tudo e que faz ela na vida. Os mais pequenos, alunos de 7º e 8º ano do liceu ouvem-na maravilhados e fazem-lhe mil perguntas se ela não tem medo dos animais selvagens e se consegue curar todos os meninos doentes. Os mais velhos chegam por vezes a comover-se disfarçando rapidamente a lágrima matreira ou a cor avermelhada nas faces com um pedido de copo de leite com cacau como só a Senhora sabe fazer. A Senhora. É comum vê-la embrulhar as sobras do dia em papel de prata e dividir em pequenos sacos que distribui pelas mochilas dos que sabe precisam. E como sabes mãe? Pergunta-lhe o filho com frequência ao vê-la evitar umas mochilas e abrir outras. Olha-os nos olhos Miguel, responde-lhe baixinho e num tom tão terno que o atira rapidamente para os anos em que enrolado numa manta rota, no chão de uma sala sem móveis, adormecia ouvindo-a cantar num sussurro a altas horas da madrugada. Olha-os nos olhos que dizem sempre o que calamos.
Do outro filho ninguém sabe grande coisa. Acho que nem ela. É o único com direito a medalhão de fotografia pendurado ao pescoço. Arrisca-se que morreu, que fugiu, que deu um desgosto à mãe e que a mãe lhe deu um desgosto a ele. Assim mesmo à vez. Vez das pessoas que comentam sem saber, mas porque têm de comentar para tentar saber. Ninguém lho pergunta directamente mas quando fala dos filhos ela enuncia-os por ordem de idades e chegando ao Manuel toca ao leve no medalhão. Como que a ter a certeza que ele ainda está por ali.


O espaço é fantástico. E está quase sempre cheio de garotos que em horários divididos ali passam grande parte do tempo livre. Estudam, pesquisam, lêem, comem e bebem. Não há caixa registadora, nem dinheiro, nem qualquer tipo de troca.

O grande mistério é saber como é que ela consegue manter tudo, tudo oferecer sem nada pedir em troca. Diz-se à boca fechada que depois de muito sofrer na vida recebeu uma herança incalculável. Outros alvitram que lhe saiu um qualquer prémio em dinheiro chorudo. A maioria limita-se a agradecer aquela presença serena e meiga, algo etérea, num dos bairros mais complicados, pobres e carenciados do concelho. São vários os pais que lhe pedem que olhe pelos meus meninos que a admiram tanto e outros tantos que a interpelam pedindo conselhos sobre como reagir ou castigar ou premiar. Ouve-os a todos como se nada mais tivesse para fazer na vida. É esta disponibilidade permanente, esta concentração no interlocutor, aqueles grandes olhos castanhos secos de lágrimas e sem brilho, que nos atrai a todos.

Como se ali estivesse, por nós e para nós.

O filho sorri quando lhe fazemos perguntas mais íntimas e evita-nos arqueando o sobrolho em tom meio irónico meio sério.


Há dias, estava eu sentada a consultar uma enciclopédia como as que havia em casa do meu Pai, entrou uma mulher de uns trinta anos, meias de renda preta e saia curta, blusão de pele colado ao corpo, muito maquilhada o que lhe dava um ar patético. Curiosa observei o diálogo entre as duas:
Preciso de ajuda sabe? Precisava que me emprestasse algum dinheiro para poder ir à cidade. Os clientes e o tom de voz baixava à medida que a minha curiosidade aumentava. Vi o corpo da Matilde ser percorrido por um arrepio. Juro que vi! Quando em casa contei o episódio todos me olharam no gozo, mas eu juro que a vi transformar-se. Saiu de trás do balcão onde cortava fatias muito fininhas de pão que depois de barradas com manteiga caseira eram colocadas no forno cobertas de queijo, e faziam as delícias da segunda leva de miúdos que deveria estar a chegar para lanchar e fazer os trabalhos de casa.


Agarrou a rapariga pelos ombros e disse-lhe em voz clara e tão diferente do tom que lhe conhecemos tu queres trabalhar? Ao que a outra, meio assustada com a reacção de quem lhe tinham dito ser a pessoa mais calma e serena que poderia conhecer, respondeu quero, claro, mas como, onde .. a fazer o quê? A senhora sabe como isto está não sabe? Desculpe, desculpe, disseram-me para vir aqui que … olhe desculpe, e quase a chorar ia andando para trás, tentando libertar-se daquelas mãos que lhe apertavam os ombros e daqueles olhos que lhe perscrutavam a alma.


Vi a Matilde acalmar. Abrir uma gaveta e dela retirar um avental igual ao seu. Mirou a rapariga e disse-lhe num tom totalmente diferente, no seu tom; naquele tom que nos diz que é connosco e só connosco que ela está a falar: eu preciso de ajuda por aqui minha querida. Importas-te?

Há algo que sempre me deixou curiosa depois desta cena. Porque é que de todas as pessoas que a Matilde já ajudou, de todas a quem já tanto pagou, ofereceu, proporcionou, teve esta rapariga honras de com ela passar a partilhar o espaço que todos adoramos e onde nos sentimos em casa? .. eis uma pergunta que gostava de ver respondida.


Mas nenhum de nós tem a coragem de a verbalizar. E isso eu sei porquê; temos medo de voltar a ver naqueles olhos o horror, o pavor e a tristeza que vimos no dia em que aquela rapariga entrou no café.

Somos afinal uns sortudos! E esperamos que a Matilde e o Miguel fiquem por aqui muito tempo. Acho que é isso que temos de lhe dizer este Natal! Acabei de ter a ideia da minha vida!! Mal posso esperar para contar aos outros: Vamos desenhar-lhe um postal de Natal!

Todos Nós. Juntos.

Como ela sempre diz que temos de ser. Juntos são invencíveis, ouvimos-lhe com frequência, Acreditem nisso.

Está na altura de lhe agradecer isso também.

*Cronista residente

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