sexta-feira, março 05, 2010

CARMINDICES


Carmindo Mascarenhas Bordalo*


40%

> Segundo o PÚBLICO de hoje, e de acordo com a amostra utilizada na sondagem, a grande maioria dos portugueses acha que Sócrates mentiu intoleravelmente no caso TVI/PT.
Ainda assim, 40% dar-lhe-iam o seu voto se houvesse hoje eleições.
Claro que as sondagens podem ser falseadas. No Pau Para Toda a Obra esse fenómeno foi desmascarado nas últimas eleições europeias, num serviço público sem preço prestado pelo João Severino.
Mas admitamos que a sondagem é verdadeira - pois ainda há meses o PS ganhou as legislativas com 36,5% e, no entretanto, o PSD está com uma liderança provisória.
Como se explica que o PS, liderado por alguém que os portugueses consideram que mentiu intoleravelmente e cujo carácter está longe de ser recomendável, esteja tão solidamente na liderança das preferências políticas?
Em primeiro lugar, há que ter em conta que o PS é um partido estruturante deste regime e, em condições normais, tem garantido um quarto do eleitorado (mais ou menos o que conseguiu nas eleições para o Parlamento Europeu, com uma conjuntura económica adversa e a desastrosa prestação de Vital Moreira). Há um eleitorado tradicional ou ideológico que jamais se afastará do PS.
Mas e os restantes?
Há que explicar os 15% que faltam para totalizar 40% dos votos - algo correspondente a uma destacada maioria relativa.
Bom, quanto a esses, estou convencido que boa parte da resposta se encontra nas bases de dados da Segurança Social, no Diário da República e na BEP - Bolsa de Emprego Público.
Há neste momento perto de quatrocentas mil pessoas a viver com o rendimento mínimo, o cartão de visita das políticas sociais do PS. Em certas zonas economicamente deprimidas (como o Alentejo e os Açores) o rendimento mínimo é a grande base de sustento de muitos, isto para não falar das periferias das grandes cidades.
Uma legião de dependentes, da qual muitos podiam trabalhar ou trabalhar mais, prefere a buchita do rendimento mínimo, que devem a Sócrates e sequazes.
Por outro lado, Sócrates abriu as torneiras dos empregos do Estado.
Com os governos PSD/CDS eram raras as admissões na função pública. Alguns organismos autónomos iam quebrando a regra, mas no cômputo geral eram poucas as ofertas.
Com Sócrates abrem vagas em catadupa. Basta consultar a BEP. Veja-se a evolução.
Isto para não falar em estágios e situações similares.
Como é óbvio, muitos estão à espera que abra o lugar pelo qual tanto anseiam para si ou para os seus. Não vão certamente votar contra quem os abre.
Portugal é um País atrasado no contexto europeu. Há dez anos que praticamente não tem crescimento económico.
A buchita do rendimento mínimo e os empregos no Estado são o melhor que se arranja porque a economia está de rastos.
Sócrates sabe-o e gere a situação. Congela salários e prejudica quem trabalha, mas vai engrossando o nível de dependentes.
É evidente que isto piora a situação.
O mesmo aconteceu com a Lei das Rendas: Sócrates, ao invés de resolver a situação de acordo as regras de racionalidade económica e jurídica, preferiu manter tudo como estava. Umas centenas de milhares de pessoas vão ficando pela casa alheia a pagar uma ridicularia, enquanto outros têm de se endividar até à medula para terem tecto e os centros das cidades vão apodrecendo.
Com Sócrates o conforto imediato, ainda que medíocre, está garantido.
É certo que com o passar do tempo a situação se agrava. Mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas...

*Professor Catedrático Jubilado, cronista residente

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