segunda-feira, fevereiro 08, 2010

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*




INSPIRAÇÃO

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Sento-me à mesa da sala na penumbra do candeeiro que espalha uma luz difusa, serena. Miro a vela a arder, cheiro a canela, vermelho sangue, e inspiro calmamente o aroma apelativo que se encarrega de eliminar os vestígios do último cigarro fumado. Maldito vício que já tentei contornar de todas as formas e mais alguma. As folhas de linhas estão sobrepostas, milimetricamente arrumadas, e a caneta predilecta em cima delas, ligeiramente inclinada. A inspiração não aparece, não há assim um tema, O tema sobre o qual me apeteça escrever, a política nacional faz-me sorrir de tristeza, os casos, casinhotos e casotas, melindres de almas pouco sérias não são para esmiuçar. Perscruto o molho de folhas, arrumadas na tentativa que do papel ainda branco, pautado, saia a ideia que me apeteça explorar e recordo as boas-noites da princesa, dorme bem mummy, amanhã quero ler, e que vai ela ler, sorrio agora mirando o tecto e dando graças pela limpeza profunda a que me dediquei, os tectos estão alvos de novo, as paredes bem esfregadas e nem uma réstia de nada a apontar em cima dos móveis ou sob os sofás.
Amanhã quero ler e a inspiração que não vem, a vela arde, não até ao fim que ao contrário do que se advoga não é bom presságio quando tal acontece, logo eu que de supersticiosa tenho menos que nada, mas o certo é que não as deixo a arder sozinhas e raramente lhes aproveito os restos. O candeeiro cansado, os meus olhos também, mais uma anotação mental para reapreciar se as lentes ainda continuam a cumprir a sua obrigação, uma volta pela cozinha arrumada, mais um toque no estore de tecido que não me parece direito, abro e fecho o frigorífico à procura de coisa nenhuma e apago as luzes.
Passo no quarto dela cuja respiração nem se ouve, coisa que me afligia e me tirava o sono quando ela ainda era bebé, sempre dormiu sem se ouvir esta criança e penso que de criança tem quase nada já, comprida que está, a ocupar metade da cama em largura mas com os pés já visíveis perto da madeira. Beijo-a na testa ao que murmura algo imperceptível e sorri acompanhada que deve estar nesta altura de sonhos doces, com o que sonhará a minha filha, pergunto-me, afastando-me para o meu quarto e pensando intimamente: amanhã terei a inspiração para outro algo escrever.
Estou certa que sim.

*Cronista residente

2 comentários:

ana e. disse...

João, esta tua cronista é um amor. Ela adora a filha e neste texto podemos ver bem como deviam ser todas as mães: preocupadas com os seus filhos. Uma mãe que adora os seus filhos no mundo de hoje já é uma anormalidade. Eu tenho 38 anos e nunca a minha mãe me aconchegou o lençol. Chorei ao ler esta crónica maravilhosa. Obrigado Catarina.

CPrice disse...

Obrigada eu, Ana :)