terça-feira, fevereiro 02, 2010

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*


> Estou cansada.
Cansada de segurar a porta do elevador e dizer bom dia sorridente a quem lá vem dentro sem obter resposta ou sorriso equivalente.
Cansada de esperar que passem todos, os mais velhos e os mais novos na passadeira sem acelerar, derrapar, guinchar pneus, como vejo fazer imediatamente atrás de mim. Cansada de ser correcta e educada, ensinar a filha a ser correcta e educada para depois ser ridicularizada por uma professora que coitada, é só a directora de turma. Só. Sem qualquer responsabilidade acrescida portanto, numa altura em que para pessoas como a dita senhora ser professora é .. (algo que a própria ainda não descobriu).
Cansada de cumprimentar, agradecer, pedir por favor. Facilitar, ceder. A sério. Nos tempos que correm mais rápidos que o que se consegue viver penso ser algo obsoleto, perfeitamente antiquado e objecto daquele irritante sorrisinho condescendente que alguns imitam tão bem, a cordialidade, a urbanidade e acima de tudo, a educação. Aquela real. A de berço.
Estou cansada de me ver envolvida em questões de consciência. Mesmo. Acho aliás que uma das resoluções deste ano redondo será mandar a minha querida e estimada consciência às urtigas. Assim mesmo. Sem apelo nem agravo. Porque diabo tenho eu de me consumir em assumir a postura mais correcta, ponderada, serena e pensada se ao meu lado as pessoas atiram-se para o chão e fazem uma birra digna de criancinha de três anos porque perderam o lugar de estacionamento X no meio de centenas de outros disponíveis? Não me explicam? Porque razão tenho eu de me esforçar em considerar todos os ponderandos e considerandos da minha pobre existência quando vejo outros, com responsabilidades maiores que o verbo a dizerem hoje o que juram a pés juntos não disseram, amanhã.
Portanto.
Assumo que estou cansada.
E sei que isto não é nada bom. Nada bom, mesmo.

*Cronista residente

4 comentários:

(c) maioria silenciosa: P.A.S. disse...

CATARINA

Como é bom estar cansada, assim! Porque diverge da multidão, daqueles que já nem um sorriso conseguem, daqueles que já há muito desistiram por cansaço!

CPrice disse...

(c) .. acha? às vezes adorava conseguir misturar-me, deixar de me ralar, deixar-me ir.

But .. there's no quitter around here, whatsoever !

Grata *

Carmindo Mascarenhas Bordalo disse...

Cara colega Catarina,

Lembre-se dos primeiros versos do célebre "If", de Rudyard Kipling. Ajudam-nos sempre a manter a compostura quando os outros perdem a cabeça.

"If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise (...)".

CPrice disse...

Professor, e cita-me logo o meu poeta preferido? (ou um dos .. ) :) Obrigada. Sei que sim. E não vou desistir ainda que me tenha sabido bem o desabafo.

Obrigada *