quarta-feira, fevereiro 10, 2010

O feicebuque DA MINHA VIDA (10)


Austrália (I)

> Tinha 16 anos e sonhei que um dia estava a viver na Austrália. Um livro com fotografias maravilhosas de paisagens sem fim, manadas de gado, corridas de cavalos, praias infinitas, grandes carros e mistura de gentes influenciara o sonho.
No auge da minha vida profissional em Macau, com uma condição financeira excepcional e com a família feliz, aceitei um convite para dirigir em Sydney um centro cultural português. Parti com tudo o que tinha. Um contentor cheio de esperança para preencher a vida futura resultante do sonho da adolescência.
Instalado em Sydney e distraído com os despachos radiofónicos que enviava para a Rádio TSF e para a TDM-Rádio Macau, nunca imaginei que o projecto cultural português em terras australianas fosse por água abaixo a partir dos promotores. Olhei para a grandiosidade da nova "casa" e perguntei-me o que fazer para sustentar os estudos dos filhos e a vivência naquele país da Oceania. Ainda me lembro das palavras de um amigo português "É pá, aqui para ganhares bem ao nível do que estás habituado, só se fores para as minas ou para a construção civil". Passadas duas semanas, com a conta bancária a chegar ao zero, já estava de fato-macaco, botas de segurança e utensílios de operário da construção civil à cintura a trabalhar na construção de um arranha-céus que, hoje, garbosamente a baía de Sydney ostenta. São vinte pisos de betão e vidro, de uma arquitectura esbelta e moderna, que me fez expelir muito sangue, suor e lágrimas durante o tempo em que ali trabalhei. Como sabia bem inglês, tive a sorte de ser eleito pelos companheiros de trabalho como delegado sindical da 'Union' e, a partir desse dia, poder passear-me pela obra, a fim de fiscalizar o que a lei ditava em defesa dos operários. Por exemplo, quando a temperatura atingia os 32 graus, gritava eu: "Stoooop woooork!". Se começava a chover, novamente: "Stoooop woooork!".
O trabalho árduo e bem remunerado, tendo chegado naquela altura (1990) a receber 1.500 dólares australianos por semana, serviu essencialmente para manter a minha dignidade de cidadão e juntar o dinheiro suficiente para os bilhetes de regresso a Macau.
Recordo o dia em que peguei no diário Sydney Morning Herald e numa página li o que um colega australiano tinha escrito: "Os emigrantes chegam a este país com as calças e a camisa e vão-se embora com um contentor. O jornalista-operário João Severino foi o primeiro emigrante que vi chegar com um contentor e ir-se embora com as calças e a camisa...".

© jes 2010

14 comentários:

CF disse...

Caro JES,

Gostei de ler este pequeno pedaço da grande aventura que é a sua vida. Desde raids terrestres Macau Lisboa, a aventuras em Rádios por todo o mundo, a passagens pela construção civil em arranha céus do outro extremo do mundo, realmente a sua vida dava mesmo um livro!

Perdoe-me apenas esta pequena intromissão. Mas afinal o que é que aconteceu depois de regressar a Macau? E porque teve de voltar a Portugal?

É que ainda há dias li vários comentadores a falarem sobre isso num outro blog de Macau, mas não percebi nada do que se passou.


Cumprimentos,
Carlos Fidalgo

joão eduardo disse...

Caro Carlos Fidalgo

Obrigado pelas suas apreciações.
A questão que coloca é uma história triste e longa. De todo o modo, envie-me um email para o endereço do blogue que eu respondo-lhe para satisfazer a sua curiosidade.

Abraço

Carmindo Mascarenhas Bordalo disse...

O João Severino esteve em posições que lhe permitiriam hoje ser muito rico. Mas muito rico mesmo.
Não é. Pelo menos de dinheiro.
É milionário de coração, de bondade, de amor ao próximo.
Se ele fosse muito rico de dinheiro, tendo passado por Macau, não era a jóia de homem que é. As grandes quantias de dinheiro de lá, pelo menos as que passavam por mãos portuguesas, nunca eram conseguidas com o suor do rosto.
João: orgulho-me de ser amigo de quem é milionário de honra e de generosidade. Não me orgulho de ter conhecido alguns milionários de euros e de cunhas.

joão eduardo disse...

Caro Professor Doutor Carmindo

Um grande obrigado sem palavras.
Abraço amigo

Anónimo disse...

Eu confesso que também não conheço os episódios de Macau. Tem a ver com o PS?

Perdoe-me também a pequena curiosidade.

Seria interessante continuar a história contada neste post. Aliás seu percurso é realmente uma longa aventura, cheia de peripécias e lições de vida. E a forma como conta os relatos ainda dá mais charme à narrativa.

Gostava sinceramente de ler mais posts como este!
:)


Joana P

CPrice disse...

.. tu escreves muito bem João. E arrastas-nos nesse turbilhão, agora tão bem arrumado, que tem sido a tua vida.
És rico sim. És aliás dos homens mais ricos que conheço.

Abraço*

joão eduardo disse...

Obrigado Catarina. É a tua amizade. Beijo.

Anónimo disse...

Adorei ler este post!

Anónimo disse...

Adorava conhecer a Austrália. E Macau. E Timor. E todos esses destinos longíquos por onde deixou um pedaço da sua vida.

Ainda espero um dia poder realizar o meu sonho de viajar por esse mundo fora.

De todos os sítios onde viveu, qual deixou mais saudades?

joão eduardo disse...

Caro Anónimo 11:18

Muitas saudades, de Macau, apesar de ter sido maltratado e injustiçado.

Carlos Dias Ferreira disse...

João:

Fica aqui mais um testemunho teu de que és "pau para toda a obra" mas quem te conhece bem tem honra em ter-te como amigo é o meu caso pois acima de tudo és "vertical" da cabeça aos pés, para bom entendedor...
Continua como és e já agora saiam mais facebuquices da tua vida e não duvides dava para escreveres um livro.
Um abraço forte, amigão.

joão eduardo disse...

Obrigado Carlos. Um livro? Mas sempre rejeitei escrever aí uns cinco que já devia ter escrito. Como toda a gente publica livros, o meu já não tem lugar nas bancas.

Lusitana Paixão disse...

Excelente este post!
Não há continuação?

joão eduardo disse...

Caro Lusitana Paixão

A minha ideia é continuar, mas tem sido doloroso. Há recordações que nos entristecem e abalam muito. E não seria sério apenas escrever sobre as centenas de situações boas que tive na vida. E maca(u)quices há muitas para contar...
Abraço