sábado, fevereiro 27, 2010

GRANDE TRISTEZA GRANDE AMIGO DEIXOU-NOS


> O meu grande amigo Humberto Abreu, residente em Macau, colaborador dos meus jornais desde a primeira hora, colaborador deste blogue, colaborador do diário macaense 'Hoje Macau' que assinava os seus artigos por Pinto Fernandes, um homem bom com B grande, foi acometido de uma leucemia que acabou por lhe ceifar a vida, hoje, no hospital de Macau. A minha dor é imensa. Este homem maravilhoso, simples, humilde, profissional exemplar, proibiu-me enquanto vivesse de dar conhecimento público do bem que proporcionou a muita gente. Não falarei de nada a não ser de um caso exemplar que se passou comigo. O Humberto soube no Natal de 2008 que eu me encontrava numa situação financeira precária com graves dificuldades para fazer frente à vida. O Humberto reuniu uns amigos seus a quem pediu um contributo para me enviar. O donativo proporcionou-me um Natal mais feliz. Um caso que nunca esquecerei, que me aqueceu a alma e que ainda hoje não me deixa controlar as lágrimas.
O Humberto adorava escrever e por esse motivo, em sua homenagem, vou aqui deixar-vos o último artigo, que ainda na quinta-feira passada publicou no 'Hoje Macau'. Para a sua mulher Isabel, um beijo de solidariedade nesta hora de dor. Humberto, obrigado por tudo e até sempre.



A Ingerência
Por Pinto Fernandes, in 'Hoje Macau'



Há apenas dois meses o Chefe era outro e dizia que os portugueses eram parte integrante do progresso de Macau. O novo Chefe, por exemplo, diz que o progresso de Macau não é possível sem a presença dos portugueses.
Como vêem, grandes diferenças!

Um amigo meu, que em visita de trabalho se deslocou a Maputo nos anos 90 do século findo, contou-me uma história algo comovente e demonstrativa de como as coisas não se devem de misturar.
A meio da tarde, ele e outros profissionais da informação, entraram no Hotel Polana daquela cidade, com a finalidade de comer alguns aperitivos e beber umas cervejolas de modo a refrescarem-se.
Já sentados à mesa, repararam que atrás deles estava um grupo de sul-africanos, de etnia branca, que haviam já feito o respectivo pedido, aguardando a todo o momento que fossem servidos.
Entretanto, o velho empregado do Polana, homem que anos antes havia passado de porteiro a chefe de sala do restaurante, atende rapidamente os clientes, entre os quais se encontrava o tal meu amigo, acabando por servi-los primeiro que o grupo sul-africano.
A reclamação não se fez esperar e, com bastante alarido, demonstraram a sua insatisfação por os outros clientes estarem a ser servidos primeiro, embora tivessem chegado depois deles.
O velho empregado, com a calma e pacatez que conhecemos dos povos da antiga África portuguesa, recomenda alguma tranquilidade e diz-lhes que o pedido está quase pronto e a sair.
Insatisfeitos por terem sido preteridos não desarmaram e, com a motivação de terem sido os primeiros a chegar ao local, e os outros terem acabado de chegar, acabaram por gerar alguma confusão dirigindo alguns impropérios contra o velho africano.
Este, em tom educado mas incisivo, responde-lhes, textualmente, - os senhores estão enganados, estes senhores não chegaram agora, estes senhores chegaram (pausa) há quinhentos e oitenta anos. Toma e embrulha!
É sobejamente conhecida a irritação que causa a ingerência, sendo que, talvez o mais popular e mais conhecido exemplo, é aquela frase que diz, entre homem e mulher não metas a colher.
Vem isto a propósito de um texto sobre Macau, inserido numa revista especializada em medir a qualidade de vida dos outros, a que o jornal Ponto Final fez referência na semana passada.
Ao que parece, o texto não é actual e, segundo os especialistas na matéria, esse artigo peca por alguma antiguidade e estar desactualizado face às mudanças que Macau demonstra todos os dias.
Um exemplo flagrante e significativo é o que se passa na administração.
Há apenas dois meses o Chefe era outro e dizia que os portugueses eram parte integrante do progresso de Macau. O novo Chefe, por exemplo, diz que o progresso de Macau não é possível sem a presença dos portugueses.
Como vêem, grandes diferenças!
Depois, nestes dois meses de governação, iniciaram-se uma série de acertos na administração como há muito não se via. Presidentes, directores de serviço, e outros lugares de confiança, começaram a dar lugar a novas contratações, ou promoções. Enfim, como se apercebem, Macau não está parada e o que ontem era assim, hoje é diferente.
Um outro exemplo de que vos falo, bem menos importante, é aquele buraco na Estrada Governador Albano e Oliveira, ali na Taipa. Esse, há dois meses tinha quinze centímetros de diâmetro, agora já vai para lá dos trinta. De facto, Macau não pára!
E o que tem a tal revista a ver com isto? Bem, é muito simples.
Em primeiro lugar, esta gente vem cá só para coscuvilhar e opinar sobre o que não sabe. Sabem lá eles se a gente gosta de viver num estaleiro permanente onde a chinfrineira não pára o dia inteiro? Que sabem eles da má construção em Macau e dos preços exagerados das casas? Que têm eles a ver com o sistema de saúde e se este é retrógrado, desumano e ineficaz? Que têm eles a ver com o sistema educativo cá da terra? E que sabem eles de panchões, e do barulho que fazem, para que a administração não acedesse em prolongar por mais dois dias a queima dos ditos, para, não incomodar a população, com grande prejuízo para os vendedores?
É fácil chegar a Macau com um bloco e um lápis na mão e começar a apontar defeitos, dizer que a qualidade de vida não é boa, que os preços dos géneros alimentícios são elevados e os mercados são uma javardice, que os transportes deixam muito a desejar, que os velhos vivem sozinhos, que a mão-de-obra existente é de má qualidade e que é praticamente impossível (para alguns) importar trabalhadores capazes, e por aí fora. Sim, e depois?
Estas questões dizem-nos respeito, é a população de Macau que deve fazer a diferença e, se julgar que tem direito a uma vida melhor, ela e só ela é que poderá reivindicar melhores condições, escolher o seu futuro e o que quer efectivamente. Quanto aos ingerentes, que passem muito bem!

Nota: desculpem os meus leitores por não aprofundar um pouco mais este tema mas, como fui apanhado de surpresa com as declarações do Tiger Woods, ainda não parei de chorar. Pôs-se-me um nó na garganta que me deixa incapaz de raciocinar...

6 comentários:

Anónimo disse...

é como diz os bons vão e a cambada fica. aqui em macau há tantos bandidos que nunca mais vão. abraço de saudade ao meu escritor pinto fernandes

Foca45 disse...

Ao Amigo Joao quero, em meu nome e no da restante familia, agradecer a sua sentida homenagem ao meu irmao Humberto. Um abraco e bem-haja.Jorge d'Abreu

joão eduardo disse...

Caro Jorge e restante família.
Não agradeçam o que é devido. Perdi um grande amigo, dos sérios, únicos, inigualáveis, poucos. A dor da perda é imensa e estou verdadeiramente de luto como tivesse perdido um irmão.
Eu e o Humberto fomos coniventes num exemplo secreto e patriótico. Defendemos os agentes da administração portuguesa de Macau de uma forma peculiar: escondendo e esquecendo os seus erros, os seus abusos e os seus roubos sem nunca termos usufruído fosse o que fosse com esse silêncio. Por isso, lhe chamo patriótico. As medalhas do 10 de Junho deviam ser para portugueses como o Humberto. Abraço-vos.

pseudónimo disse...

Uma palavra de conforto a JES pela perda do Amigo.

Karocha disse...

Que dizer João!
Abraço
Karocha

Carlos Dias Ferreira disse...

João:

Infelizmente é nestas alturas que o nosso sentimento de perda sobressai e nos deixa saudosos.
UM ABRAÇO SOLIDÁRIO PARA A FAMÍLIA E PARA TI AMIGO.