quinta-feira, fevereiro 11, 2010

GRANADEIRO JÁ ESTRANHA

> Quando José Sócrates anunciou, no Parlamento, a 26 de Junho de 2009, que o Governo iria opor-se à compra de um terço da TVI por parte da PT já sabia que esse negócio não iria realizar-se porque a administração da telefónica tinha tomado a decisão de não avançar. Na altura, o primeiro-ministro justificou a negativa afirmando que "o Governo não quer que haja a mínima suspeita de que esta compra se destina a qualquer alteração da sua linha editorial".

Henrique Granadeiro, chairman da PT, disse ontem ao PÚBLICO que comunicou a Sócrates, a 25 de Junho, num jantar em casa do ex-ministro da Economia, Manuel Pinho, que tinham existido negociações entre os grupos, mas que o negócio não iria concretizar-se. "Tinha pedido há vários dias para falar com o primeiro-ministro, mas ainda não se proporcionara. De facto, podia ter informado previamente. Nada me obriga a comunicar à golden share negociações, mas apenas decisões que impliquem a alteração do perímetro da PT, ou seja, compras ou vendas." O responsável da PT estranha o episódio em que Sócrates afirmou na AR, depois dessa conversa, que o Governo iria opor-se ao negócio - que já estava rejeitado -, para não levantar suspeitas de intromissão editorial na TVI. "Não percebo isso, fiquei um bocado surpreendido."

Porém, o responsável da PT dissera anteontem ao PÚBLICO que o seu encontro com Sócrates havia sido a 22 ou 23 de Junho, seguramente antes de a PT ter enviado o comunicado à CMVM. E afirmou ao Diário Económico que "a única vez" que falara com Sócrates sobre o assunto fora para lhe transmitir que iriam "enviar um comunicado à CMVM a anunciar que estavam a estudar a compra de uma participação na TVI". Este comunicado, enviado a 23 de Junho às 21h11 - depois de a Bolsa de Nova Iorque, onde a PT está cotada, ter fechado -, "confirma a existência de contactos entre o Grupo Prisa e a Portugal Telecom", e adianta que "não foi contudo celebrado qualquer acordo". Continuaram, tal como hoje, "as negociações para o fornecimento de conteúdos e a criação de novos canais". Na base da recusa da PT esteve "uma análise economicista, estratégica e de oportunidade", explica, reconhecendo que o momento, em vésperas de eleições, "não era o melhor". Mas reitera "não ter recebido do primeiro-ministro ou de algum membro do Governo qualquer indicação ou sequer sugestão directa ou indirecta no sentido de fazer o negócio de apreciação da TVI".

Ontem, no Parlamento, Sócrates confirmou que tomou conhecimento "pela primeira vez" do negócio PT/TVI durante o jantar. E sustentou a afirmação com um telex da Lusa, de 25 de Junho, no qual Granadeiro negava ter dado conhecimento ao Governo sobre as intenções da PT. Durante o debate sobre o Orçamento, Pedro Mota Soares, líder parlamentar do CDS, acusou Sócrates de incoerência, argumentando com as suas declarações no Parlamento e as palavras de Granadeiro ao Diário Económico. Mas o primeiro-ministro rejeitou qualquer contradição e insistiu que, "do ponto de vista formal, o Governo não foi informado".

Questionado sobre as explicações de Sócrates sobre o caso TVI, o presidente da Assembleia da República considerou que o primeiro-ministro "deu as respostas que considerou adequadas". Gama admitiu que a divulgação das escutas do Face Oculta origina uma "questão política", que deverá ser analisada através das audições na comissão de Ética. Gama rejeitou a ideia de que esta polémica ponha em causa a estabilidade política, noticia a Lusa.

In 'Público'

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