segunda-feira, janeiro 11, 2010

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*





Conto solto (ii)

Vou,
respondeste, assustando-me. Vou contigo C, vou contigo até ao fim do Mundo, afirmaste tomado de um entusiasmo desconhecido. Num atropelo e de faces coradas em receio mas felizes empacotámos tudo o que era passível de desaparecer sem deixar rasto. Fizeste contactos nos dias seguintes e todas as noites chegavas com novidades. Documentação pronta, identidade alterada.
Lembro-me de ter cortado o cabelo bem curto. Nunca me tinha visto assim na vida. Tu pintaste os loiros caracóis sempre despenteados. Nunca mais os tiveste. Mesmo muito depois de ser necessário. Foi como se a tua natureza tivesse, definitivamente, deixado algo para trás.

Fizemos tantos planos, conjecturámos tantas hipóteses, inventámos tantos disfarces. Percorremos a Europa em boleias, escondidos em bosques pequenos, dormindo em vilas ainda semi-destruídas. À medida que deixávamos para trás tanto pesadelo e desgraça, tanta bomba, tanto barulho, tanta morte, tanta recordação, renascíamos.
Só quem nunca viveu em guerra pode permitir-se renunciar à paz.
E ambos a viveramos. A Guerra Mundial dos homens contra os homens e a nossa guerra contra nós mesmos.

Foram os melhores tempos da minha vida. E acredito que da tua. Sonhávamos com uma casa pequena, telhado vermelho, num penhasco sobre o mar. Tu escrevias sentado numa cadeira de verga trabalhada, pintada de branco. Rascunhos sobre as pernas e olhos franzidos ao sol que batia de chapa até desaparecer no horizonte do mar. Eu tratava do jardim. O meu orgulho. Espécies várias, grandes e pequenas, de todas as cores. E alfaces enormes, tenras e de folha clara como tinha aprendido com o meu irmão, a cultivar. Chapéu largo na cabeça, pele tisnada do sol, e no coração um enorme alívio por ter conseguido.
Em noites de Inverno, abraçados sob a arcada da varanda de madeira, observávamos o mar encapelado e zangado com o mundo dos homens, a rugir nas rochas cinzentas e escarpadas em salpicos salgados.

Sonhávamos.
.. mas foi precisamente nessa altura, em que achava que tinha retomado as rédeas que me apercebi que não se devem fazer planos na vida.
Ela já tem diversos planos para nós. E raramente se encontram.

*Cronista residente

2 comentários:

Carmindo Mascarenhas Bordalo disse...

"foi precisamente nessa altura, em que achava que tinha retomado as rédeas que me apercebi que não se devem fazer planos na vida"

Verdade, verdadinha.
Já dizia o meu querido bisavô (ai que saudades!): "não deites contas à vida que elas saem furadas".
A nossa pequenez é assim mesmo, para o bem e para o mal. Por vezes ficamos até melhor do que se pensava, mas nunca como se planeou.
Nestes tempos em que se voltam a sentir crises de incerteza como as que se viviam há muitas décadas atrás, estas máximas de sabedoria são de novo necessárias. Já acabaram as redes que nos amparavam as quedas. Voltámos a só poder contar connosco e com a inesperada solidariedade de alguém bem formado que se atravesse no nosso caminho.
E temos de voltar aos velhos ensinamentos. Um deles é o de que temos de construir o presente sem olhar para o amanhã, porque não se sabe como vai ele ser.

CPrice disse...

Quanta sensatez neste seu comentário Professor.
Obrigada por isso. E é tal e qual diz. "construir o presente" será talvez a única arma para sobrevivermos.

Cumprimentos