Segunda-feira, Novembro 02, 2009

O SEXTO SENTIDO



Catarina Price*



Somos todos pacientes? (II) Somos pois ..!



> Paradas no estacionamento do pequeno centro comercial onde nos abastecemos quinzenalmente de tudo o que não se pode comprar no mercado (chamem-me antiga) à espera da manobra esquerda-direita-avança-recua através da qual, o senhor, dono de um sedan maior que o local escolhido para estacionar, tentava sair da camisa-de-onze-varas onde se enfiara. Literalmente.

Atrás de nós, vários carros à espera do mesmo, ainda que sem o privilégio de assistir à manobra.

Abro ligeiramente o vidro, desligo o som do rádio para poupar os tímpanos à interferência que o mesmo faz no subsolo, e espanto-me com a senhora dona de uns cinquenta e tal anos, carro novo e luzidio cheio de mossas e riscos, que me tenta ultrapassar pela esquerda sabe-se lá para quê, (é um verdadeiro mistério a mente de uma condutora de fim-de-semana, eu sei).

Olha-me de alto a baixo, não sei à procura do quê, estou sentada for Christ!, e abana a mão no ar como que a enxotar uma mosca. Avança mais um rodado de pneu para ficar entalada entre o meu carro e o pilar que veda o acesso aos chicos espertos dos nossos descontentamentos, ups, estacionamentos! Ao tentar recuar bate, obviamente, no meu carro. Aliás teria de ser feita de borracha para conseguir sair da enrascada. Ou isso ou perceber que o ponto de embraiagem é para ser feito enquanto se roda o volante.

Abro agora vidro todo e olho-a. A azáfama em rodar o volante era tanta que ao sentir-se observada, estaca de repente, batendo de novo no meu carro, e fica a olhar para mim, ligeiramente esgazeada.

O dono do carro larger than, acaba por conseguir soltar-se da apertada camisa e avança. Impacientes os carros atrás de mim aceleram, sem sair do sítio.
Ligo os quatro-piscas, saio do carro para observar as consequências dos encostos com que tinha acabado de ser mimada.


De ar espinoteado e aos guinchos, literalmente aos guinchos, alguém a ensine a gritar por amor da santa, a irreflectida condutora salta do banco com os braços no ar.
Mas tem alguma coisa pergunta-me tem? tem? .. ã?! Diga lá tem ou não tem? enerva-a o meu silêncio, a seguir ao “boa tarde” com que a brindei, enquanto observo o pára-choques do pobre sapo que se não fosse um carro bem-educado .. nada tem de facto, mas o da fresca e fofa ganhou uns riscos extra. Felizmente do lado do pilar.


Sem lhe dar resposta, entro de novo no carro perante o ar gozado da princesa, avanço e estaciono.

Mummy .. estou impressionada - Diz-me a minha mais que tudo na pura da ironia, conhecendo-me a falta de paciência para este tipo de, tipo de, isso mesmo!

Para dentro, garanto-Vos que nem os elementos mais afastados da família daquela espécie, confiando que haja mais, valha-nos!, foram poupados.

E depois, há outros dias em que a paciência é, de facto, minha companheira ;)


*Cronista residente