quarta-feira, Novembro 25, 2009

O feicebuque DA MINHA VIDA (6)

MACAU (II)

> As muitas conversas que mantive com Stanley Ho ao longo de cerca de vinte anos foram, normalmente, sobre assuntos impublicáveis, porque assim lhe prometi. Acerca deste homem que teve um grande poder sobre a maioria dos governantes portugueses que passou por Macau já foram escritas as mais mirabolantes histórias de vida. A maior parte delas sem autenticidade, realismo e congruência. Dezenas de jornalistas e de oportunistas pediram entrevistas a Stanley Ho. Quase sempre cumprimentavam-no, perguntavam-lhe como estava de saúde e depois escreviam o que lhes apetecia. Stanley Ho sempre teve os seus próprios canais para fazer chegar a informação que pretendia aos jornais, especialmente quando se tratava de "recados" aos políticos da China, Macau e Hong Kong.
Nunca pedi um favor a Stanley Ho, mas sei que, um dia, os macaenses Herculano Estorninho e Adé Santos Ferreira disseram-lhe que "este português merece que o senhor dê ordens para que seja enviada publicidade para o seu jornal". Eu tinha apresentado à STDM, a empresa concessionária dos casinos de Stanley Ho, uma proposta para um contrato de publicidade para um jornal que tinha em mente fundar em Macau. O Adé e o Herculano acrescentaram-lhe a informação que a minha mulher era timorense e amiga de Carlos Assumpção - o melhor advogado que alguma vez Macau conheceu e antigo presidente da Assembleia Legislativa. Stanley Ho mandou chamar-me e recebeu-me no seu gabinete do Hotel Lisboa. Quis conhecer-me e fundamentalmente dar-me um conselho, o qual nunca esqueci. "Se for conhecendo a cultura chinesa, os chineses gostarão sempre de si", disse-me. E foi verdade. Em Macau, só os portugueses me fizeram mal.

Devo ser dos poucos portugueses que passaram por Macau ocupando um lugar de topo na sociedade que nunca pediram nada a Stanley Ho. Não obtive qualquer "prenda" para viajar, para comprar casa, para adquirir quinta ou herdade, para passar férias em paraísos, para passear de iate ou para influenciar qualquer governador de Macau com notícias favoráveis às pretensões do magnata. Stanley Ho sempre me tratou pelo meu nome chinês "Si Ian Kuai", o nome de um herói lendário da história da China. E também nunca me pediu nada.
Um dia, um companheiro do jornal 'South China Morning Post", de Hong Kong, transmitiu-me uma história sobre o enriquecimento de Stanley Ho que raiava o impensável e o ofensivo. Estava lançado o mote para tentar saber a verdade. E soube-a. A maioria dizia que foi a venda de ópio que enriqueceu o "rei" dos casinos. Não foi verdade.
Poucos são aqueles que têm conhecimento das razões porque o magnata sempre gostou dos portugueses. Uns dirão, que se deve ao facto da administração portuguesa lhe ter aprovado sempre o que desejou. Não.
Stanley Ho era um homem muito pobre. Certo dia, um macaense levou-o à presença do gerente do Banco Nacional Ultramarino, Jorge Grave Leite. Stanley Ho foi pedir um pequeno empréstimo para um pequeno negócio. Grave Leite respondeu-lhe que lhe concederia o crédito, mas que poderia ser o primeiro e o último, caso Stanley Ho não cumprisse o pagamento na data indicada pelo gerente bancário. Stanley Ho cumpriu impreterivelmente. O gerente concedeu-lhe outro empréstimo de quantitativo três vezes maior. Ho voltou a cumprir o pagamento. O BNU concedeu-lhe outro e mais outro empréstimo, até que um dia, Stanley Ho conseguiu a propriedade de uma pequena sala de jogo. Ho nunca mais parou de ganhar dinheiro, mas também nunca mais esqueceu ao longo da vida o "homem da sorte", o tal gerente Jorge Grave Leite, o qual, mais tarde, viria a ser inspector da administraçção pública em serviço pelas colónias portuguesas.
A consideração, amizade e respeito que Stanley Ho dispensava a Grave Leite ficou patente, quase de forma absurda e doentia, num caso concreto que aconteceu na vida de Jorge Grave Leite como cidadão reformado. Recebeu um telefonema de Stanley Ho pedindo-lhe que fosse ver o Hospital Particular, em Lisboa, porque não queria comprar o hospital sem a opinião de Grave Leite. Este, respondeu-lhe que não entendia nada de assuntos ligados à Medicina. Ho limitou-se a explicar-lhe que só adquiria o estabelecimento hospitalar de luxo, se Grave Leite entendesse que se tratava de algo "muito bom" tal como alguém tinha informado o magnata do jogo. Grave Leite informou o seu amigo Ho que se tratava do melhor hospital privado de Lisboa e Stanley Ho passou a ser o proprietário daquele centro médico sem ter visto as instalações.
Stanley Ho sempre entendeu que a sua vida de empresário bem sucedido se tinha ficado a dever ao português Grave Leite e, nesse sentido, nunca mais deveria virar as costas aos portugueses. E assim tem sido.

© jes

4 comentários:

João Carvalho disse...

Gostei muito. Parabéns.

jes disse...

Obrigado amigo João. Dito por ti tem um grande valor porque há poucas pessoas que conheçam Macau como tu.

O nosso amigo Pedro Correia teve a amabilidade de colocar o postal em destaque no Delito de Opinião, do que concluo que também gostou.
Bem-hajam. Abraço

João Melo disse...

muito bom!

jes disse...

Um abraço de agradecimento, caro João Melo.