Sexta-feira, Outubro 09, 2009

NO COSMOS



NASA/JPL-Caltech/Keck


João Paulo Borges*


ANÉIS HÁ MUITOS


> Diz-se muita coisa. Uma delas que o povo é sábio. Ao não ter eleito Ferreira Leite para governar o país, efectivamente, assim parece. Afinal, desde que foram inventadas, as eleições em Portugal pouco mais têm servido senão para mudar moscas. Se assim é, então mantenham-se aquelas a que já conhecemos os hábitos. Ora, nessa sua sabedoria, diz o povo, que se vão os anéis mas que fiquem os dedos. Eis que esta semana se descobriu que Saturno, embora não possua um único dedo, ganhou mais um anel.

Vejamos: na realidade o anel já lá está há uns valentes milhões de anos, nós só agora demos por ele e, ao contrário de Maria João Pires, não precisou de fazer birra para ser notado. O Hubble pode ser o Cristiano Ronaldo dos telescópios espaciais, mas desta vez o brilharete veio do Spitzer, um observatório de infravermelhos lançado para o Espaço em Agosto de 2003 e que se encontra a cerca de 100 milhões de quilómetros da Terra, zona onde, aliás, e a avaliar pelo seu comportamento, se pensa que vive também Silvio Berlusconi.

Segundo os astrónomos, a estrutura agora descoberta, para além de ser muito ténue, tem outra característica: é imensa, um super-anel. Se fosse visível a olho nu, a partir da Terra, ele ocuparia, no céu, uma área equivalente a duas luas cheias, ou quatro Fernandos Mendes, como quiserem. O anel, que se estende até aos confins do sistema saturniano, começa a desenhar-se a 6 milhões de quilómetros do planeta e termina nos 12 milhões. Dificilmente esta estrutura poderia ser descoberta com um telescópio “normal”, dado ser composta por pequenas partículas de gelo e poeira, em relação umas às outras, tão afastadas que se você estivesse no meio do anel não daria por isso. Assim, com a quantidade de luz que reflectem, associado ao facto de em Saturno o Sol ser muito menos exuberante que na Terra, seria muito difícil a um astrónomo detectar esta estrutura sem a ajuda de um telescópio como o Spitzer que, com o seu olho infravermelho, conseguiu detectar o brilho da poeira, poeira essa onde a temperatura ronda os 193 graus negativos.

Uma das luas mais distantes de Saturno, Febe, orbita bem dentro deste anel e os astrónomos suspeitam que este tenha origem no seu material. O sistema saturniano tem mais de luas que CDS-PP, Bloco de Esquerda e CDU juntos têm de deputados. O senhor dos anéis possui 61 satélites naturais, embora a maioria seja composta por pequenos asteróides. De entre as que apresentam maior porte, Jápetos é a mais estranha: com uma face branca como os lenços mostrados a Paulo Bento e outra escura como o breu, esta lua é quase comparável ao símbolo do yin-yang. A nova descoberta pode também ajudar a resolver este mistério.

Febe e o super-anel rodam numa direcção, enquanto Jápetos, os restantes anéis e muitas das outras luas seguem em sentido contrário. Os astrónomos suspeitam que algum do material da estrutura agora descoberta caia na direcção de Saturno, fazendo com que Jápetos acabe por absorver algum, naquilo que se pode comparar a insectos que são apanhados pelo pára-brisas de um carro. Há muito que os astrónomos suspeitavam que Febe estava, de alguma forma, ligada a este contraste cromático de Jápetos. Por isso, resolveram concentrar naquela área a atenção do Spitzer, que apesar de ser uma máquina fabulosa, não bate os árbitros da Liga Sagres, capazes de ver penáltis onde não existem.


*Cronista residente

4 pauladas:

Anónimo disse...

Caro JPB
já venho a este blog com muito mais prazer desde que o senhor escreve. Fabulosa esta crónica. A sua ironia misturada com a ciência é que leva qualquer um a absorver o que de desinteressante passa a interesse, a conhecimento e a prazer de ler. Muito obrigado por este bom momento.

carlos cavaleiro sanches disse...

gostei bué. cronicas assim adoro mesmo

Anónimo disse...

Este cronista devia vir para ficar

monica disse...

genial. adorei.