Quarta-feira, Outubro 28, 2009

DESAFIO


Jorge Cabral*


“ EDUCAÇÃO CÍVICA, POR ONDE ANDAS???”


> Ao romper de mais um dia de trabalho fui agraciado com algo que me encheu de orgulho dos meus concidadãos. Algo que me ajudou a enfrentar mais um dia de notícias tristes, de perspectivas sombrias, de abusos de muitos dos agentes públicos, etc.,etc..

Na Avenida de Roma, em Lisboa, mesmo em frente do Centro Comercial Roma existe uma paragem de autocarros com a respectiva reentrância para que estes encostem sem prejudicar o trânsito, o que, diga-se, quase nunca fazem, estacionando a mais de dois metros do passeio, obstruindo inquestionavelmente a faixa de rodagem da direita e com isso, prejudicando sempre o fluxo do tráfego, para o qual se estão literalmente nas tintas.

Acontece que um senhor bem vestido, de meia-idade, acompanhado de uma senhora igualmente muito “bem apresentada”, enfim um modelo de casal cinquentão, pararam o seu moderníssimo jeep, reluzente e bem cuidado, no topo da tal paragem.

Desse facto, aproveitou-se o motorista de um autocarro da Carris, que ali passando e tendo que parar na tal paragem, embicou direito ao jeep e em lugar de o evitar, o que poderia fazer facilmente, fez exactamente o contrário por forma a poder alegar que essa viatura não lhe permitia repor o autocarro na faixa de rodagem para prosseguir caminho.

Face a tal comportamento o senhor aproximou-se do autocarro e terá dito qualquer coisa ao motorista e este a ele, conversa que não ouvi. O que ouvi logo a seguir e que muito lamento foi a tal senhora, a tal, muito brunida por fora, aos berros no meio da estrada dos quais consegui extrair, por culpa exclusiva dos meus ouvidos, o seguinte: “Deixa esse filho da puta, o que me faltava era agora ter que discutir, foda-se!” E disse! Foi sintética, pragmática e elucidou-nos que do lado de dentro não dispunha absolutamente de nada do que ostentava por fora.

Desculpem-me a liberdade de expressar literalmente o que ouvi, mas para mim era importante que o fizesse face ao que abordarei de seguida.

Ando também nos cinquenta e tal como o casal a que acima me reporto e registo sistematicamente as críticas que os da minha geração fazem acerca da alegada má educação dos jovens de hoje. Mas se de facto o são, a quem o devem em primeiro lugar? A quem lhes transmite os exemplos que, natural e espontaneamente copiam! E esses quem são? em primeiro lugar os familiares, depois os professores e por último mas não com menor importância, a própria sociedade através do comportamento-tipo do cidadão comum. Ou seja, que moral temos nós para criticar e condenar os nossos jovens quando, numa situação tão insignificante como a que aqui descrevi se gera uma cena daquele calibre e de tamanha grosseria?

É que tudo isto é tão lastimável!... Naquela ocorrência, nenhum dos adultos agiu como devia: - um porque parou o carro sem o mínimo de respeito ou consideração fosse por quem fosse; - o outro porque não demonstrou qualquer complacência, tudo fazendo para “pôr o dedo na ferida” e gerar um conflito gratuito e sem sentido; e por último a digníssima “dama” vem fechar com chave de ouro, de tal forma que rameira alguma faria melhor. Todavia, todos eles transpiravam razão e a culpa era toda alheia. Que caca de gente!!!

Para quando utilizarmos os espelhos para vermos os nossos verdadeiros defeitos e tratá-los com exigência e cabalmente? Para quando fazermos da civilidade uma prática que nos orgulhe e ajude a enfrentar o dia-a-dia com mais ânimo e mais orgulho na sociedade que constituímos?

*Cronista residente

4 pauladas:

S.C. disse...

Um texto a pôr o dedo em algumas feridas, já chagas purulentas, da nossa sociedade. Reina, na verdade, a falta de educação e as vestimentas mais ou menos aperaltadas de alguns cinquentões, ou quarentões/sessentões, etc,não correspondem, muitas vezes, a boa educação, a civismo. Chego a sentir-me embaraçado, em lugares públicos, com a linguagem que por vezes ouço da boca de "damas" como as que descreve. Pensarão que são mais modernas a falar assim que nem carroceiros? Uma vergonha!

Carmindo Mascarenhas Bordalo disse...

Há anos que constato o que se segue.
Antes do 25/4/1974 os palavrões eram algo absolutamente mal visto. Claro que havia quem os usasse, mas as pessoas que tinham de si mesmas alguma noção de brio nunca os proferiam em público e preocupavam-se imenso em que os seus filhos e netos não tivessem contacto com tal linguajar.
Durante a revolução (o que apanha em pleno a adolescência e início de idade adulta da faixa etária referida pelo Jorge Cabral) começou a tornar-se banal e desculpabilizado o uso de palavras porcas. Por exemplo, imensa gente começou a dizer, com a maior das naturalidades, que algo sujo estava "cag..."; que uma coisa que não presta é uma "me..."; que alguém que não tem carácter é "filho da...".
As asneiras - qual PCP - já existiam, mas passaram da clandestinidade para a legalidade, usadas indiscriminadamente à mesa, ao ver-se TV, a falar com crianças.
Houve um abandalhamento social e o que era considerado errado e próprio de gente baixa passou a ser tolerado.
Os tempos abrilinos trouxeram a conspurcação do imobiliário urbano (com cartazes e pinturas políticas, a que se juntaram os "graffitis" de arruaceiros sem nada que fazer), a violência no desporto (pois o que importa é ganhar a todo o custo, como logo mostrou o Futebol Clube do Porto quando preferiu os métodos de Pinto da Costa à linha Américo de Sá), a falta de compostura social, a degradação e sujidade dos espaços comuns.
A que se deveu isto?
Obviamente à perda de autoridade das escolas e da polícia, às leis que beneficiam a libertinagem, à falta de recursos (agora desbaratos à tripa forra) para pagar a zeladores e viligilantes.
O resultado foi este.
Se antes se tentava corrigir o que estava errado nos comportamentos sociais, agora vamos todos alegremente atrás do que dá na real gana.

Anónimo disse...

Muito bom Carmindo. Dedo na ferida e grande verdade. Doa a quem doer.

Jorge Cabral disse...

S.C.
O que ainda nos espanta mais é que só se veja criticar a juventude, muitas vezes, a partir exactamente de gente desta.

Professor,
O seu comentário é estupendo e correctíssimo. Todavia, também é verdade que com tais "mudanças" também surgiu a moda da auto-crítica, a qual, a respeito destes comportamentos parece nunca ter sido aplicada.
Um abraço