Segunda-feira, Outubro 05, 2009

CARMINDICES



Carmindo Mascarenhas Bordalo*


SUBMARINOS E DEMAGOGIA


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O CDS conseguiu regressar a uma votação de dois dígitos em eleições legislativas (10,46%), o que não alcançava desde a já longínqua liderança de Lucas Pires. Foi a terceira força política nacional, o que desde 1983 só conseguira duas vezes (em 1995 e 2002). Alcançou deputados em círculos eleitorais que nunca lhe foram favoráveis como Coimbra, Faro, Santarém e Madeira. Conseguiu eleger um 2º deputado por Aveiro e Braga. Aumentou consideravelmente de votação em Leiria.
Foi unânime a análise de que Paulo Portas teve uma prestação notável em campanha, apresentou um programa político bem estruturado e se afirmou como um político credível, talvez mesmo o grande vencedor das eleições.
Logo após 27 de Setembro surgem notícias de que estão sob suspeita judicial as compras de submarinos para a Marinha Portuguesa, levadas a cabo quando Paulo Portas era Ministro da Defesa Nacional. Coincidência? Não avalio.
Mas o que se pode avaliar é a profunda demagogia que envolve e sempre envolveu a questão da compra daqueles vasos de guerra, com um coro de vozes estridentes pondo em causa a importância de submarinos para Portugal.
Programada ainda pelos governos de António Guterres, a compra do Arpão e do Tridente para a Armada visou a substituição de 4 velhos submarinos que Salazar comprara nos anos 60. Verdadeiras relíquias que já há muito deveriam figurar num museu militar, funcionavam a diesel e tinham um poder de submersão extremamente baixo, tendo de vir à tona em poucas horas para carregar baterias.
Os novos submarinos estão munidos de sistema AIP (Air Indepedent Propulsion) que lhes permite manterem-se debaixo de água mais de duas semanas consecutivas, sendo muito mais silencioso - ou seja, tudo factores de menor detectabilidade. Além disso, o raio de acção dos novos vasos é muito superior.
Por que motivos é tão criticada a compra dos submarinos?
São melhores.
Vêm substituir uma esquadrilha totalmente arcaica.
Podem desempenhar muito melhor as funções de defesa nacional.
Lanchas rápidas e outras embarcações que se propõem sempre como alternativa aos submarinos são matéria de segurança e não de defesa nacional.
A questão é esta: será realista querer conservar a Marinha de Guerra Portuguesa sem submarinos?
A resposta afirmativa é tão ridícula como querer cozinhar bifes sem usar carne.
Nenhuma Marinha moderna pode passar sem submarinos, que são de difícil detecção, alto poder de fogo e, por isso, têm uma força de dissuasão enorme. Nas duas Guerras Mundiais o poder submarino foi de enorme importância. As guerras navais travadas após 1945 ( a guerra indo-paquistanesa de 1971 e a guerra das Falklands/Malvinas entre o Reino Unido e a Argentina, em 1982) mostraram o quão decisivo era o papel da força submarina em qualquer combate no mar: apesar da derrota, foi através de um contra-ataque submarino que o Paquistão conseguiu suster o ataque cerrado que a Índia fazia a Karachi, o que constituiu o único êxito paquistanês; foi o HMS Conqueror que detectou e afundou o navio argentino Belgrano, que representava enorme perigo para as tropas britânicas.
Portugal tem uma Zona Económica Exclusiva de grandes dimensões e de interesse estratégico vital. Já sofreu provocações espanholas quanto às Selvagens (sendo que Espanha, evidentemente, não dispensa força submarina). Estamos perto de países islâmicos, sempre sujeitos a convulsões conhecidas.
Não contar com submarinos seria mutilar a Marinha de Guerra Portuguesa de grande parte do seu poder de dissuasão face a essas e a outras ameaças. Isso, na prática, significaria deixar de ter Marinha. E esta é a grande questão.

NOTA FINAL