Quinta-feira, Agosto 20, 2009

UM CONTO










Liliana Fernandes




Até que a morte nos separe


> Em pequena, Joana, 24 anos, via, às escondidas, séries criminosas. O suficiente para lhe incutir no espírito a vontade de ser psicóloga forense. Determinada, perseguiu este sonho como um condenado à morte saboreia a sua última refeição. Formou-se na faculdade que traçou como única e licenciou-se com distinção. Em paralelo, fazia da dança a música da sua vida e da política a sua religião.

Terminado o curso, foi convidada a integrar a equipa de um dos mais prestigiantes nomes da área, trabalhando directamente com prisioneiros. No estabelecimento prisional, tinha nas mãos um poder quase imperioso: decidir se os reclusos tinham ou não as condições necessárias para saírem em precária.

Joana não sabia por que se tornou cúmplice desta ideia: sempre fora livre e a ideia de permanecer fechada sufocava-a. No entanto, algo que não conseguia traduzir em palavras chamou-a para aquele local. Cresceu com os avós paternos e por eles foi criada. Ensinaram-lhe tudo o que é hoje e, diz, são os pilares da sua vida. A mãe roubou a vida ao pai, 13 anos mais velho - anos de azar. Matou-o. Um dia, enquanto arrumava o sótão das recordações, caiu uma caixa que em tudo lhe era desconhecida e com a única certeza de que sua não era. A sombra das mãos roçou a caixa vezes sem conta. O coração, acelerado, gritava “abro, não abro”. As mãos tremiam como se adivinhando o cheiro libidinoso do teor no interior da caixa. A curiosidade ecoou no nervosismo dos dedos que, ao compasso das batidas cardíacas, desfizeram a caixa. De dentro, saltaram pétalas secas de rosa vermelha e cartas envelhecidas apenas pelo tempo. O silêncio era ensurdecedor. As lágrimas lambiam-lhe o rosto e a raiva agarrava-se às paredes da garganta, tolhando os gemidos de dor. Descobrira que antes de si, o marido tinha tido uma paixão tórrida, carnal, voluptuosa com a sua mãe, actual sogra. Como iria conseguir conviver com os dois? Num impulso, telefonou à mãe, entretanto viúva, para ir jantar a casa. Ao marido, inspector da PJ, nada avisou. O jantar tinha como música de fundo um silêncio perturbador, interceptado, apenas, pelas notas musicais que os talheres ensaiavam. No final, o barulho do brinde dos copos foi omitido pelo estoiro de vários tiros, certeiros nos corações da mãe e marido da mãe de Joana. Foi condenada a pena máxima e a perpétua por se privar dos primeiros “tudos” da filha Joana.

Com meses de vida, Joana ficou aos cuidados dos avós paternos que tudo fizeram para a proteger do fado que carregava sem saber. Conhecia de cor, como a sua canção preferida, a versão do que “acontecera” aos progenitores: morreram num acidente de viação e ela, como era muito pequenina, não tinha viajado com eles. Quanto à ausência de fotos a vestirem os recantos da casa era para que os avós não sofressem cada vez que tropeçassem em alguma. Em toda a casa, havia apenas um retrato do pai de Joana. Dos pais, Joana sabia apenas que tinha a fisionomia do progenitor e a garra de quem a trouxe ao mundo. Era o que bastava. Os avós paternos nunca mais souberam nada da então nora, somente que qualquer pena seria nula para o sofrimento que causou.

A jovem sabia que, onde estivessem os pais, estariam orgulhosos do seu percurso profissional. Estava ansiosa por conhecer o grupo de reclusos com quem teria de trabalhar. Eram cinco. Dois homens e três mulheres, com idades medianas, excepto um que tinha 31 anos.

Joana ouvia-os dia após dia. A gana de penetrar nas suas mentes e apoderar-se de uma história que não é sua para perceber o motivo que os empurrou para ali era uma meta diária. A cada dia que passava, estava mais sedenta por estar com aquele grupo. Descobrira um efeito hipnotizante sempre que estava com Gustavo, 31 anos, que matou por ciúmes da mulher. Para a psicóloga, Gustavo era uma espécie de antídoto.

As conversas em grupo depressa deram lugar a confidências particulares, somente entre o recluso e a psicóloga. Estranhamente, Joana sentia-se “em casa” com Clara, uma mulher que assassinou o marido. Sentia um à-vontade espinha a cima que a deixava mole, inerte na cadeira; a mulher, por outro lado, olhava para Joana como se aquele sorriso fosse o esboço que concebeu há 24 anos. Sem saber como nem porquê, Joana caminhou por um mar de confissões a uma mulher que lhe era completamente desconhecida e, de si, só necessitaria saber se saía ou não em precária.

Com Gustavo, as conversas tomavam outros contornos. Joana ruborizava. Os olhos desviavam-se à procura de abrigo, tentando ignorar a presença do recluso. Brilhavam por socorro, pediam clemência para não lhe suspirar termos feudais e os de Gustavo, que se atropelavam no seu caminho, ancoravam-se ao olhar dela, acorrentavam-se ao seu cheiro e desmaiavam no percurso pelo mapa do seu corpo. Joana queria que as suas impressões digitais demarcassem com beijos molhados os caminhos já explorados. A psicóloga, prestando vassalagem ao sentimento, esvaía-se nos braços de Gustavo e ficava inanimada à espera do carimbo dos seus lábios. Deram início a uma paixão, cujo limite eram aquelas quatro paredes.

Em casa, Joana lia e relia os princípios éticos. Entupia a caixa de mensagens do telemóvel da melhor amiga e marcou consultas em catadupa para o seu psicólogo. Na dança, transportava para os movimentos do corpo o desfile de sensações; nas reuniões do partido falava do aumento de doentes de SIDA com um sorriso delator. Só queria que lhe dissessem que a única sentença era tirar Gustavo daquele ambiente escuro, sombrio, cuja única luz que conhecia era a presença de Joana.

Com Clara as confissões estreitavam-se. Tomou como suas as dores que lhe relatava, pausadamente, compassadas pelo embargo que a voz lhe impunha. Um dia, já sentindo Joana como sua confidente e não como psicóloga, mostrou-lhe a única foto que, do exterior, tinha levado consigo. Joana calou o sorriso, os olhos arregalaram-se, o coração parou e a voz de Clara mais não era do que ruídos mudos. Joana saiu apressada.

Já em casa, demorou-se junto da foto do pai e as conclusões a que chegava pareciam relâmpagos, iluminando a sua tese: a pessoa que estava na foto de Clara era o seu pai. Sem licença, invadiu a avó de perguntas. Atordoada com tudo o que ouvira, a avó paterna não tinha dúvidas de que se tratava de Clara. Olhou para o marido, anuiu, baixou os olhos, fixando-os na foto que tinha do filho e, num rompante, contou a verdadeira história de Joana.

A jovem adormeceu atordoada pelas voltas que as ideias davam. De manhã, na prisão, salva pelo abraço de Gustavo, Joana procurou repor o ritmo cardíaco. Tentou interpretar tudo o que descobrira e traduzir o porquê de estar naquela prisão. A resposta foi dada pelo bater da porta. Era Clara a reclamar a hora da consulta. Gustavo abandonou a sala, com a certeza de que, em breve, a precária ser-lhe-ia autorizada, como aos restantes.

Com os olhos ainda humedecidos, Joana recebeu Clara. Gaguejando nos gestos, Joana acariciou o rosto de Clara que, em jeito de suspeita, franziu a testa. Clara, reconhecendo aquele gesto como seu e tomando-lhe a posse, demorou-se uns segundos. Para Clara pareceram longos minutos. Joana, pé ante pé nas palavras, começou por relatar à reclusa a sua história. Clara, perspicaz, confundiu-a como sua. Joana, aquiescente do que estava a fazer, parou o discurso no momento em que Clara abanou a cabeça como que se recusando ouvir o final da história que ela própria escrevera. Foi a própria a terminar o capítulo do guião que assinou com o sangue da mãe e do marido. Mãe e filha abraçaram-se até à exaustão. Choraram e riram juntas e, no final, Clara recebeu da filha a ‘carta de alforria’.

Fora do estabelecimento prisional, Joana encontrava-se com Clara e Gustavo. Certo dia, Joana sentiu Gustavo a ficar frio no toque, gélido no sentir. Joana não percebia. Na mãe, não encontrou o conforto das palavras.

No regresso à prisão, Joana tentou recriar com Gustavo o cenário em que as suas mãos se tinham entrelaçado e os lábios encaixado. Em vão, os dedos de Gustavo estavam hirtos, como que resistindo à presença de Joana. Já Clara sorria levemente à filha, refugiava-se no único amor que teve e, por isso, incauta na interpretação das emoções.

Um dia, Joana chegou mais cedo ao estabelecimento prisional. Degrau a degrau caminhou para a sala de consultas. A maçaneta da porta não obedecia à mão de Joana. Com o auxílio de um guarda, venceu a teimosia do bocado de ferro. Lá dentro, Joana parecia presenciar uma cena shakespeariana: Clara e Gustavo amarrados nos braços um do outro, indiferentes à presença dos demais. Acordaram, apenas, no momento em que Joana encheu a sala de ecos de choro, se agarrou à barriga, escorregou pela parede velha e cinzenta e, escudando-se nos joelhos, deixou que as veias sobressaíssem da garganta, inchadas de raiva.

Num ímpeto, agarrou na arma do guarda prisional e em tiros desafinados calou o seu sofrimento. Diante de si, estavam os corpos de Clara e Gustavo. Clara despediu-se, assim, da vida que nunca teve. Gustavo sobreviveu, acumulando a culpa do mal que causou a Joana. Esta foi condenada a três anos com pena suspensa e, no dia em que se despediu do estabelecimento prisional, que foi o começo e fim de tudo, quis ver Gustavo. Fechando a porta às lembranças, mas consentindo a presença do sentimento, olhou-o e segura proclamou aquela que seria a sua última sentença para o seu amor: Tu és o ar que me faz respirar; a Terra que me faz sentir segura; o Fogo que me faz arder; a Água em que banho os meus sentimentos…Tu és os quatro elementos fundamentais da minha vida.

5 pauladas:

Jorge Cabral disse...

Liliana, peço desculpa antecipadamente por dizer-lhe que deve evitar contos tão tétricos com o presente. Isto não transmite nem saúde nem paz mental a ninguém. É uma espécie de fatalismo doentiamente incontornável. Não aprovo. Gosto muito mais dos seus versos!...

ricardo disse...

História negra, sim, talvez a evitar num blogue, não sei, pois a verdade é
que a literatura de todo o mundo está cheia de histórias negras... e só lê quem quer, certo?

Liliana Fernandes disse...

Jorge, obrigada pelas palavras. Por vezes, a escrita tem destas coisas: nem sempre escrevemos o que nos faz sorrir. No entanto, agradeço ser seguidor dos poemas :)

Jorge Cabral disse...

Nada disso Liliana. Não sou seguidor de poemas. Sou seu seguidor e acho que tem uma aptidão enorme para escrever em geral. A sua narrativa está muito boa quanto à forma como se expressou, à construção e apresentação, etc. Mas é muito deprimente e com toda a sinceridade penso que devemos evitar estes estados de alma.
Caro Ricardo, a si tenho que lhe dizer simplesmente que a única forma de se saber o que está escrito... é lendo! Como tal, essa de só se ler o que se quer é gíria barata.

Anónimo disse...

Olá Liliana,

Apesar de a história ser um pouco "negra", gostei muito...e devo confessar que nao conhecia esse teu lado de escrever contos!Desde já os meus parabéns. Em relação à história devo confessar que o confronto entre o desejo, vontades e o profissionlaismo que cabe ao psicólogo de não se deixer envolver emocionalmente com o paciente, está muito bom.

"gosto"