

Emoção (II)
A casa estava fechada.
Janelas entaipadas onde outrora ondulavam as pequenas cortinas brancas, imaculadas e a cheirar a sabão azul e branco.
Os chorões haviam há muito deixado de “chorar”. Tristes ramos sem folhas que já não varriam o chão nem murmuravam histórias de encantar aos pássaros, também estes haviam voado para longe, sem folho para aninharem.
O portão outrora pintado de verde, brilhante, estava enferrujado, tinta lascada, sinal de abandono. Foi com esforço que aplicando todo o seu peso, conseguiu que se abrisse.
Lá dentro, desolação.
O jardim dantes cuidado, as roseiras príncipe negro e as outras que se carregavam de pequenas rosas de santa teresinha não eram mais que um emaranhado de ramos secos, sem norte nem rumo.
A pequena horta onde ainda se via de joelhos no chão e unhas negras de terra, um labiríntico amontoado de raízes, secas, que haviam crescido sem água e sem frutos. A terra revolta sinal que os cães, conseguindo saltar o muro, ali faziam as suas camas.
Um gato gordo, branco, correu até ao fundo do jardim rasando-lhe as pernas, assustando-a.
Lentamente deu a volta à casa. Parou no pequeno pátio e procurou o som familiar do papagaio que a brindava com um God save the Queen em tom trocista. A gaiola estava vazia, igualmente ferrugenta. A manta que a cobria, tricotada pela avó em tons garridos, era um trapo rasgado, pendurado ao vento, preso num arame teimoso e espetado.
Forçou a entrada na sala pelas portadas do pátio e aí, sem esforço, conseguiu entrar. Admirou-se se seria a única a fazê-lo. Lá dentro a penumbra, envolta em pó que rodopiava na réstia de luz como que em dança de boas vindas, deixou vislumbrar os grandes sofás cobertos de mantas brancas, o chão sujo, tapetes enrolados a um canto. Não havia luz. Voltou atrás e abriu de par em par as portadas das janelas.
Voaram um pequeno morcego e algumas borboletas da roupa num bater de asas assustado. A seus pés vários insectos para os quais já não tinha nome, disparavam em todas as direcções. Sentiu-se intrusa em casa própria.
Passou à sala seguinte: a sala da avó, a sua sala. O piano. Negro, enorme, coberto de pó que ficava preso aos seus dedos enquanto acariciava o marfim das teclas, a madeira outrora polida e brilhante. Parou. Escutou ainda os sons que trepidantes reproduziam as melodias ali tocadas. Todas. Tantas.
A cozinha pareceu-lhe estranha. Sem as grandes panelas ao lume num vapor que volteava até à chaminé, sem os pratos constantes na mesa como quem espera companhia na certa, e o tabuleiro da Família Real, onde estaria?
O quarto, esse estava intacto. Como se de alguma forma nem os insectos, nem as borboletas da roupa, o vento ou o sol ou a chuva tivessem conseguido autorização para o invadir. A cama perfeita, feita, lisa, como se lembra que a avó sempre deixava antes de sair cedo. O tocador ainda numa profusão de pequenos cremes, a escova e o pente, a rede de cabelo. Os cortinados corridos, pesados, as fotografias de família na parede, bem alinhadas. O avô, os bisavós, o tio.
Ela. Ela pequena, rechonchuda, a andar de baloiço lá fora no jardim. Meias até ao joelho, saia aos quadrados com peitilho, uma camisola de gola alta. Estava frio naquele dia, lembra-se bem. Sorriso aberto, sardas no nariz, a emoção de experimentar pela primeira vez o baloiço que as duas haviam construído e pendurado entre gargalhadas, no rosto pequeno.
A emoção.
Ela, de cicatriz na sobrancelha, fruto de uma afoita incursão no recreio dos rapazes da escola que frequentava e da fuga intempestiva logo que descoberta, ainda de bata cor de tijolo com a placa do nome orgulhosamente bordada no peito. Ela, no dia de final de curso, olhos brilhantes, diploma na mão. Ela, de vestido de noiva, figura de porcelana, braços desnudados e luvas até ao cotovelo. Tantas, ela.
Virou-se muito devagar para o espelho. Olhou-o, olhando-se, e sorriu.
Já não era nenhuma daquelas que lhe sorriam presas na parede. A vida tinha-se encarregado de a modificar, moldar, fazer crescer. Mas a emoção de voltar a casa essa mantinha-se imperturbada. Emoção avó? Havia tantas vezes perguntado.
Quase que apostava que a resposta agora seria: está nos regressos, menina.
*Cronista residente






4 pauladas:
Esta crónica dava um filme. Bonito. Gostei muito.
Obrigada João :))
Belo trecho, Catarina.
Sente-se a nostalgia paredes meias com um mundo que se redescobre numa perspectiva viva, mas diferente da vivida.
Parabéns
Jorge Obrigada .. a nostalgia raramente me entristece :) é tal e qual escreve.
Enviar um comentário