
Jorge Cabral*
UM SINCERO VIVA! AO NOVO COMENTARISTA
> Embora não me compita fazê-lo, espero que o autor deste blogue não me leve a mal por dar as boas vindas ao ilustre leitor que se dignou comentar o post “PATETA”, cujo título, desde já o declaro, me parece inadequado e desnecessariamente ofensivo. Por outro lado, sinto que me compete não me remeter ao silêncio, face à responsabilidade que me cabe sobre muito do que neste blogue já foi dito a respeito do aproveitamento da energia do hidrogénio, mas, diga-se também e desde já que, em absoluto, recuso ser ou vir a ser especialista nesta matéria e o facto de tal ser reportado na resposta do Blogger ao comentário, só pode ser imputável à sua imensa generosidade, que, sendo quase sempre uma virtude, aqui, de facto, não o é.
Tendo feito o meu percurso académico na área da exploração e da produção petrolífera, cedo me apercebi dos malefícios para este Planeta em geral e para a Humanidade em particular, por se ter enveredado preferencialmente pela utilização desta fonte de energia, designadamente para a alimentação dos sistemas móveis. Logo percebi também, de quão fugaz seria o período da sua utilização, das consequências na rotura dos equilíbrios de todas as forças geológicas de profundidade, dos danos globais no ambiente de superfície e muitas outras consequências nefastas que não cabem numa abordagem com a superficialidade desta. A tomada de consciência de tal panóplia de desgraças, riscos e inconformidades com o que se poderia esperar de uma paradigma energético sensato e sustentável, fez-me pensar nas alternativas possíveis. É esta a razão pela qual há cerca de trinta anos penso nestas matérias e elejo o hidrogénio como a energia preferencial para a alimentação de sistemas móveis.
Não estou, nunca estive e julgo que nunca estarei, pelo menos por princípio, contra qualquer forma de energia que minimize a utilização de qualquer derivado do crude como fonte de energia preferencial, mas também não claudico perante a tentação de considerar “limpa” qualquer fonte de energia, pela simples razão de estar na moda. Todas elas têm características próprias que lhes conferem melhores ou piores aptidões para cada um dos fins a que a humanidade as destina, para satisfação das suas diversíssimas necessidades energéticas. Cada uma delas exige, cuidados, tecnologias e aptidões-base muito específicas que ninguém pode ignorar, nem tão pouco escamotear as dificuldades da sua implantação e as consequências da sua utilização massiva.
Dito isto, gostaria só que soubéssemos constituir um bloco coeso e sério que trouxesse à opinião pública geral uma informação que conduzisse à consciencialização atempada da emergência em mudarmos o nosso paradigma energético e alguns dos hábitos de desleixo que lhe estão associados – não nos esqueçamos que até há bem pouco tempo, consumir era a palavra de ordem e o consumismo foi, durante mais de 60 anos a base do modelo económico que agora está moribundo, apesar de haver quem desesperadamente quer reanimá-lo.
Para isso, é preciso que nos unamos e saibamos que só há dois lados: num estamos os defensores das energias eólicas, solares, geotérmicas, hidráulicas, das marés, das ondas, das biomassas, do hidrogénio e até da nuclear, e do outro, não tenhamos ilusões, estão as petrolíferas e todos os seus tentáculos de poder e de influência política que constrangem e dominam a sociedade a seu bel-prazer, espalhando fome aos quatro ventos, ao mesmo tempo que esbanjam escandalosamente, junto dos seus apaniguados.
Podemos discutir e criticar fundamentadamente qualquer forma de energia emergente, mas fazê-lo radicalmente numa emissão televisiva, será sempre um péssimo contributo para a alteração deste paradigma e resolução desejável deste problema. Mais, quando tal posição é assumida por alguém com responsabilidades científicas, parece-me, no mínimo escandaloso. Como tal, se é verdade, que o tal senhor professor, o fez, sem explicações elementares, abusando do tempo de antena que a sociedade lhe concedeu, tenho que registar aqui o mais veemente repúdio. Até porque, será exactamente isso, que farão quaisquer agentes infiltrados das petrolíferas se lhes dermos oportunidades para isso – dividir para reinar.
Já agora, caro colega comentador, também lhe digo que não conheço qualquer limitação tecnológica à produção massiva de hidrogénio, e face ao actual estado de desenvolvimento da tecnologia dos materiais compósitos, julgo que não há lugar ao temor que até há alguns anos era razoável colocar-se quanto à segurança da utilização do hidrogénio. Todavia, sou dos que recusa a utilização da energia do hidrogénio através de células. Considero que a sua utilização em combustão é muito mais eficaz e eficiente, para além de nos garantir a reconversão do parque actual circulante, com enorme facilidade, o que, já agora, lhe recordo que face à energia eléctrica é praticamente impossível (pelo custo) pensar-se em qualquer tipo de reconversão do parque existente.
Para terminar, gostaria muito que o nosso generoso anfitrião dirigisse um convite ao ilustre comentador a que aqui me reporto, para colaborar neste blog a respeito da sua forma preferencial de energia, em particular, ou de todas as alternativas ao petróleo, em geral.
*Cronista residente






2 pauladas:
Caro Jorge Cabral, agradeço tão calorosas boas-vindas mas também eu sinto não merecer tamanha generosidade pois devo confessar que o que me fez responder ao post "Pateta" (nome mudado para "CARROS ELÉCTRICOS") nem foi exactamente o assunto em questão... o hidrogénio.
Mas passando agora ao assunto em questão... não direi agora nenhuma novidade mas quero apenas lembrar (apesar de não ser a mesma coisa penso que se pode fazer uma certa extrapolação) do que aconteceu e continua a acontecer com o GPL, apesar do seu baixo preço: tão mal alguém deve ter dito acerca dele que depressa se espalharam os mais variados boatos sobre a sua segurança (entre outros) que ainda hoje há, por exemplo, centros comerciais com estacionamento coberto mas sem paredes enteriores (ventilação mais eficaz não há) onde não permitem o estacionamento de veículos a GPL mas nem sequer é só nos estacionamentos que se faz sentir tal discriminação... ainda hoje é frequente ouvir algumas barbaridades difíceis de combater tal é a convicção que ainda tantos automobilistas, sejam eles novos ou velhos, têm sobre o GPL.
O que acha que poderá acontecer com a opinião pública em geral quando certas pessoas (que as há sempre) começarem a dizer mal do hidrogénio (tal como disseram e dizem do GPL) fundamentando as suas afirmações nas propriedades do próprio hidrogénio nomeadamente o seu poder explosivo? Eu sei, por exemplo, que os depósitos para o hidrogénio a serem utilizados em automóveis são especialmente desenvolvidos e são fruto da mais alta tecnologia mas para o público em geral poder explosivo é poder explosivo. Se nem automóveis a GPL permitem em garagens de prédios...
Além de toda a infraestrutura física, cujo custo é para mim inimaginável (sou apenas um simples curioso em todo este assunto), necessária à implementação do hidrogénio como principal ou até como combustível secundário há que ter em conta como este poderá ser recebido pela população em geral. Na minha opinião o precedente do GPL não é bom augúrio.
E depois ainda temos o facto de já todos nós estarmos mentalizados que é o automóvel eléctrico que vem aí, que é o automóvel eléctrico que reduzirá a nossa dependêcia do petróleo, que tornará o ambiente das nossas cidades mais limpo, etc., etc..
São estas razões válidas para menosprezarmos o hidrógénio como combustível para os automóveis? Claro que não. Aceitação, infraestruturas... tudo depende de como conduzirem o processo de implementação quando ou se o vierem a implementarem.
Já agora, não foi por estas razões que, no outro "post", escrevi "desprezo o uso de hidrogénio em automóveis".
Eis as razões (por ordem mais ou menos aleatória) que me levam a pensar que para os automóveis o hidrogénio não seja de facto o melhor combustível para um uso mais abrangente:
- Actualmente, como é por demais evidente, os automóveis têm um compartimento enorme só para acomodar o motor e caixa de velocidades (algo de que o automóvel a combustão de hidrogénio continuaria a precisar), compartimento esse que limita bastante o aspecto exterior e interior de um automóvel e que seria absolutamente dispensável em automóveis eléctricos e principalmente em ambiente citadino a exclusão de tal compartimento seria uma grande vantagem a utilizar em termos de "design" já que todo o sistema de propulsão e armazenamento de energia ficariam nas rodas e no chão respectivamente.
Já vários protótipos de automóveis eléctricos (futuristas, é verdade) foram feitos que poderiam mudar o modo de deslocação de passageiros dentro de uma cidade.
- O hidrogénio é, no fundo, apenas um modo de transportar energia. Se bem me lembro das aulas de química dos meus tempos de estudante, a energia necessária para produzir hidrogénio através da electrólise da água é igual à energia que será produzida durante a sua combustão (reacção em que volta a associar-se ao oxigénio para voltar a formar água).
(continua...)
(continuação:)
- Sendo assim, em vez de se utilizarem os recursos renováveis de produção de electricidade para com esta se produzir o hidrogénio através da electrólise para só então abastecer o depósito de hidrogénio dum futuro automóvel com motor de combustão a hidrogénio (sendo este todo o processo que advoga) porque não saltar este último passo e aproveitar directamente, em motores eléctricos, a electricidade assim produzida? Com a substituição das baterias de lítio pelos mais eficientes super condensadores já em desenvolvimento e bastante promissores (creio eu) tal poderá ser perfeitamente possível e quem sabe se não de um modo ainda mais eficiente nomeadamente devido às grandes perdas de energia existentes em qualquer processo mecânico como o dos motores de combustão sejam eles a gasolina ou a hidrogénio.
Para mim, estas três, já são razões suficientes para defender o automóvel eléctrico mas, como bem sabemos, ainda vivemos e viveremos muitos mais anos num mundo movido a petróleo pelo que poderia acrescentar pelo menos mais uma:
- Sendo a electrólise um dos métodos menos utilizados para produção de hidrogénio em larga escala parece-me pouco provável que tal solução tenha apoio suficiente (dos mais variados sectores que governam a nossa vida em sociedade) para ser economicamente viável pelo que não estou a ver que centrais de energias renováveis venham a ser massivamente utilizadas para a produção de hidrogénio nas próximas dezenas de anos. Talvez em algumas dessas centrais nas horas de vazio... Ou seja, acabariamos por ter hidrogénio produzido a partir de outras fontes e actualmente as maiores fontes para a sua produção são os hidrocarbonetos e gás natural (combustíveis fósseis) da qual também resultam enormes quantidades de dióxido de carbono libertado para a atmosfera.
São essencialmente estas as razões por que escrevi "desprezo o uso de hidrogénio em automóveis" no outro "post".
Atenção que de modo nenhum nego a importância do hidrogénio seja no presente ou principalmente no futuro como fazendo parte de um esquema de energia limpa mas, actualmente, nos dias em que vivemos, estou muito céptico quanto à sua aplicação. Penso que ainda se deverão desenvolver primeiro outros métodos para a sua produção... talvez a partir de algas ou talvez a partir de um qualquer outro método ainda em pesquisa laboratorial.
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