segunda-feira, julho 13, 2009

DESAFIO


Jorge Cabral*


OS PULHAS SOBREVIVEM À CUSTA DA NOSSA MOLEZA

> Agora está na moda criticar quem critica a título de que aquela postura radica num negativismo gratuito, que, dizem os últimos, está em contradição com o País real. Pois bem. Pela minha parte discordo liminarmente de que um apontar lúcido e pronto do que está mal seja negativo. Na verdade, só esta postura poderá garantir uma evolução na linha da resolução dos aspectos perniciosos de que a nossa sociedade padece e de que o País é refém.

Recuso frontalmente que o País esteja bem e ainda mais que ele esteja a caminhar nesse sentido. Os vícios das pessoas e dos sistemas instalados, a irresponsabilidade dos mandantes (chamar-lhes governantes é exagero), a tortuosidade dos serviços públicos, a falta de educação geral que fácil e lamentavelmente se percebe, os consumos exageradíssimos da máquina da saúde face aos resultados obtidos, a mais que discutível Segurança Social que só funciona para arranjismos inconfessáveis, o estado calamitoso em que se encontra a Justiça, a quase total ausência de segurança, que só não se nota mais porque somos pacatos. Tudo isto e muito mais, são razões sobejantes para que qualquer de nós levante a bandeira da insatisfação.

Mas eu vou mais longe, eu considero que neste momento há razões bastantes para que nos indignemos e levemos por diante o que nos move, ou seja, simplesmente perseguir o objectivo de um País mais civilizado. Onde o bem comum seja um desígnio inquestionável, onde os idosos sejam apoiados, onde estejamos tranquilos com a qualidade da educação dos nossos filhos, onde a Justiça faça justiça, onde os cuidados de saúde sejam adequados às necessidades e os seus custos razoáveis, etc.,etc.. Tenhamos consciência do que nos rodeia – nada disto acontece.

Independentemente dos “encaixados” neste status quo apregoarem aos sete ventos que quem fala assim não é mais do que o “velho do Restelo” da actualidade, não temos qualquer pejo em afirmar que essa gente di-lo, porque é esse o único argumento que têm para contradizer os factos, mas é pobre e falso. Agarram-se desesperadamente aos tachos que criminosamente conseguiram e tudo lhes serve, para por caminhos ínvios, os manterem.

Contudo, o País real é bem distinto dessa cáfila de manhosos. É feito por gente que sabe o valor do dinheiro e que por isso nunca percebe como é que ele pode ser esbanjado como o tem sido, através de processos e de decisões investidos de toda a legalidade e que “transpiram” responsabilidade, mas que na verdade são o resultado da falta gritante de qualidade intrínseca de quem os promove. Tratando-se muitas vezes de gente impreparada e deseducada, como tal, sem consciência de aspectos basilares que deveriam presidir sempre à sua postura, promovem gritantes atropelos que consubstanciam graves casos de abuso de poder.

Nos últimos anos, quer a administração local quer o governo, têm gasto somas incomensuráveis em obras e iniciativas, respectivamente discutíveis e inócuas. Poderíamos aqui dar um rosário de exemplos mas tal massacre nada acrescenta ao que de todos é sabido.

Este triste e lamentável quadro só é possível porque os 95% ,que de uma forma ou de outra, somos vítimas deste profundo mal-estar e suas causas, consideramos que é melhor mantermo-nos nele, do que atirarmos a toalha ao chão de uma vez por todas, mas isso só acontece porque somos um Povo Mole.

*Cronista residente

2 comentários:

CPrice disse...

"do que atirarmos a toalha ao chão" .. e todos sabemos o quanto por vezes é necessário denunciar, falar, alterar, mudar, em vez de continuarmos simplesmente a enumerar o que está mal.
Gostei.

Jorge Cabral disse...

Catarina,
É isto que custa. Ninguém tem prazer em ser antipático... Ninguém gosta de dizer não.
O que é cómodo e não desgasta é dizer amen a tudo e passar ao lado.
Por outro lado, certas posições acabam por conotar-nos com áreas com as quais não partilhamos entenderes, vontades e princípios. E isso também contem riscos, designadamente de sermos mal entendidos ou até desvalorizados porque nos consideram adversários.
Enfim, um mar de turbulências de que muitos, por isso mesmo, se afastam.