Segunda-feira, Junho 15, 2009

Macau horribillis

P 9.440

duas horas que estou ao computador. Desculpem só chegar agora, que são 11 horas, mas estive a ler tudo o que encontrei sobre a visita de Rocha Vieira a Macau. O último governador daquele território foi "convidado" ao fim de 10 anos de administração chinesa.
Li e reli. Vi fotografias da recepção que dispensaram ao general no Clube Militar. Meditei sobre o assunto e no final de tudo fui à casa de banho vomitar porque tive um ataque de bílis.

Como é possível o mundo dos homens ter uma memória tão fraca? Como é possível ser-se tão hipócrita? Como é possível deturpar-se tanto a história apenas porque passaram 10 míseros anos?
Eu vivi em Macau 20 anos. Lutei pela liberdade de imprensa, de expressão, de reunião e de associação. Lutei contra poderes corruptos instituídos na administração. Editei jornais e revistas. Dediquei uma vida aos jornais, à rádio, à televisão e ao Grande Prémio. Assisti a toda a variedade de desmandos, prepotências, roubos dos dinheiros públicos, transferências astronómicas para empresas de comunicação social portuguesas e estrangeiras, à chegada de todas as construtoras portuguesas que sacaram a seu bel-prazer e dos seus "amigos" instalados na política, à prisão de grandes criminosos e de inocentes, à compra de dirigentes da administração, de juízes, de procuradores do Ministério Público, de directores de serviços, de secretários-adjuntos, de governadores, de ministros e de presidentes de Repúblicas.
Um dia, cometi a asneira de me revoltar no meu jornal contra uma injustiça e uma ilegalidade praticada por uma personalidade importante. Foi o meu fim. Os tribunais fantoches da altura encarregaram-se de fazer o favor de escorraçar-me da terra que eu amava e onde sustentei a minha vida. Ainda tenho lá dois ou três amigos que me pedem para regressar. Digo-lhes que não se deve voltar ao local onde se foi feliz. Hoje, sem eira nem beira, neste ano de 2009, ainda possuo uma grande riqueza: a dignidade e o conhecimento cabal de tudo o que representa a história recente de Macau e especialmente de toda a elite que ontem foi abraçar Rocha Vieira. São os mesmos que abraçam toda a gente, mas também são os mesmos que espetam a faca nas costas a qualquer um que deixe de contar para o engrandecimento dos seus interesses. É assim há décadas, não há nada a fazer. Macau sã assi...

O meu grande abraço para todos os muitos portugueses que não estiveram presentes na recepção do Clube Militar. A esses portugueses nunca lhes poderá ser atirada a pedra de terem acusado Portugal de abandonar e parasitar Macau, como ontem aconteceu nos discursos naquele Clube Militar de elitistas pacóvios e saloios com ar de novos-ricos, os tais que sempre se serviram do general para o matar ou abraçar.

9 pauladas:

Carlos Dias Ferreira disse...

João:

Grande post, João, os meus parabéns, a Verdade custa a muito boa gente.

joão severino disse...

Obrigado Carlos.

E isto nem é metade da missa...
Se eu tivesse uma editora, garanto-te que muitos atiravam-se ao mar.

Carlos Dias Ferreira disse...

João:

Pois pelo que sei, oiço e vejo, o tal território chinês sobre administração Portuguesa foi acima de tudo um "fartote de vilanagem", por isso vi "emigrar" tantos para lá durante uns tempos, alguns deles fico pasmo, actualmente desempenham bons "cargos de confiança" no regime socrático, pelos vistos devem ter ido até Macau, tirar a licenciatura!!!
Como a verdade vem sempre ao de cima vais ver que conseguirás publicar o que queres.

Jorge Cabral disse...

Mas não haverá quem ponha mão nestes "bastardos"? Por favor ensinem-me a viver tranquilamente com esta gente, porque eu de facto não sei.
Por vezes sinto-me ridiculo mas a verdade é que dou comigo a desejar que os encostem todos a uma parede porque lá no subconsciente acho que é a única forma de nos livrarmos deles.
Têm sido a desgraça deste País e pelos vistos sê-lo-ão sempre pois apesar de sermos um Estado quase policial, para estes assuntos não há polícias, nem ministério público, nem tribunais nem merda nenhuma. Põe e dispõem do que é de todos como se o tivessem recebido por herança da tia que nunca viram.

L. disse...

Como te compreendo o nojo, meu amigo!

Gostava de te poder dizer "Esquece, João!", que eles não merecem sequer a tua atenção, menos ainda a tua amargura... e é que não merecem mesmo, mas, na verdade, é cada vez mais preciso que haja gente que não esquece e que vai falando sempre, sem medo, sem oportunismos. Bem hajas!

Abraço.

L.

José Martins disse...

Meu caro João,
Eu não vi isso nem vou ver de certeza.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...
Tudo certinho o que dizes.
Hoje não farias aquilo que fizeste ontem.
Eu mesmo não seria aquilo que fui e mandava à merda a seriedade que sempre morou dentro de mim.
Vi tudo e aquilo que calhou. Insurgi-me lixei-me.
Mas vá que não vá ainda me rindo deles porque preparei o meu modesto futuro há mais de 20 anos. Porém não foi com esquemas mas com os calos das mãos.
Quando viveste em Macau deverias de te lembrares que Macau foi terra de piratas (já o era antes de os portugueses administrarem o teritório) e a pirataria continuou até fins de Dezembro de 1999.
Hoje meu velho amigo, bem melhor sabes do que eu, grandes senhores da política e do papel passaram por Macau!
Eles continuam na "boa" e tu na pior...
Essa gente que tu conheces e eu também passaram por lá bom tempo e viajavam para a Tailândia como tu de onde moras ao Terreiro do Paço tomar uma bica.
É tarde meu velho para voltares a trás, ficou-te a dignidade e a transparência e os outros "cagaram-se" para os teus príncipios.
João tu que escreves tão bem conta as trafulhices que tu sabes e passadas em Macau durante os teus 20 anos... Tudo isso é história e para que ela não se perca com o tempo. Escusas de falae no Camilo Pessanha, mas escreve sobre os contemporâneos!
Abraço

Karocha disse...

Escreva tudo o que sabe João, não lhe fazem nada são uns cobardes!
Adorava vê-los atirarem-se ao mar...

Anónimo disse...

Caro João, navego pela primeira x no seu blog e este post, estas causas, mobilizam-me.

Eu quando for grande quero ir para o céu e vou ser capaz de ñ levar nenhuma injustiça guardada cmg.

Por isso pesso-lhe encarecidamente, por favor para ñ pactuar com injustiças. Diga as coisas como elas são, ñ pactue com o silêncio, POR FAVOR

a blosfera é a melhor editora ;)
abraço

Anónimo disse...

Parabéns pelo texto, mas seria ainda melhor se pudesse concretizar algumas situações, para quem está de fora perceber mais claramente o que foi o consulado do general e sus muchachos na terra das patacas.

Continue a resistir, porque a verdade acaba sempre por vir ao de cima.