terça-feira, junho 23, 2009

O SEXTO SENTIDO




Catarina Price*




FAÇAMOS DE CONTA


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Quase todos os homens são capazes de superar a adversidade, mas, se se quiser pôr à prova o carácter de um homem, dê-se-lhe poder

Lincoln , Abraham

Façamos de conta que ainda podemos.

Que o país que nos foi legado pelos nossos antepassados merece todas as oportunidades e que nós, os falantes e pensantes, temos a obrigação de o tornar viável.

Façamos de conta que temos um caminho a seguir. Um caminho verdadeiro de todos e para todos; que as classes operárias têm empregos justos e vencimentos adequados. Que todos temos uma casa para viver, um bom sistema de saúde, e acompanhamento adequado aos nossos filhos. E que vivemos felizes só com isso.

Façamos de conta que os nossos dirigentes se preocupam genuinamente com o povo.

Connosco. Que eleitos pelo mais democrático dos sufrágios, justificam o voto de todos e de cada um com o respeito com que deve ser encarado o arbítrio de responsabilidade e confiança que um voto representa.

Façamos de conta que Portugal vale a pena. Que as pessoas estão felizes, são justas, conscientes, que os jovens estão devidamente preparados e encaram o futuro com ânsia e felicidade, que as crianças correm felizes em parques escrupulosamente mantidos para o efeito e que os idosos com elas partilham os risos e as alegrias de quem já ensinou o que tem para ensinar sem que a mais esteja obrigado.

Façamos de conta que não há barracas, nem gente a viver mal, nem gente com fome, nem pedintes na rua. E que as pessoas não olham para o lado quando, por acaso, ainda encontram algum.

Façamos de conta que os professores são respeitados, como seres imbuídos do espírito da partilha e do ensino e de fazer chegar a palavra escrita e a história falada a todos os cantos do país. Sem excepções.

Façamos de conta que as universidades preparam os profissionais do futuro na justa medida em que os mesmos irão ser necessários. E vamos acreditar que assim o desemprego desaparecerá, as condições de vida melhorarão, e não faltarão médicos e calceteiros, engenheiros e sapateiros, físicos e canalizadores.

Façamos de conta que podemos mudar tudo aquilo de que hoje nos queixamos.

Que deixámos de cruzar os braços à espera da desgraça, carpindo a desgraça, e que fomos, de mangas arregaçadas, ao seu encontro. Vencendo-a. Com a firme convicção que mudamos para melhor. Trabalhando em conjunto e em consciência social.

Façamos de conta que sim, porque para brincar ao faz-de-conta tem de ser com algo que realmente nos faça sonhar, querer e mudar.

Com a realidade, não vale.


(Nota: “Façamos de conta” – expressão descaradamente roubada a Mário Crespo)

* Catarina Price é colaboradora residente do JORNAL DO PAU

7 comentários:

António disse...

Façamos de conta que encontraremos um dirigente com todas as qualidades e mais algumas, capaz de direccionar os destinos deste País rumo a um paradigma de sociedade e desenvolvimento idêntico ao existente na Suécia...Na realidade o desgraçado seria com certeza "abafado" e/ou aniquilado!
As gerações mudam, penso que evoluem, mas dá-me a sensação que as formações obtidas e aquiridas nas J´s desforma as mentes, transforma-os em mentecaptos!

Jorge Cabral disse...

Façamos pois de conta, que a Catarina não o fez.

Anónimo disse...

Parabéns Catarina. Gostei muito.

CPrice disse...

Caro António, agradeço o seu comentário e em parte não posso deixar de concordar .. contudo, e como o prova a recente onda de desânimo por expectativas não concretizadas e promessas por cumprir, temos definitivamente de deixar de acreditar no aparecimento de um homem ao leme.
Sou uma utópica, bem sei, mas penso estar na hora de tomarmos algumas rédeas :)

CPrice disse...

Caro Jorge, fiz um pouco sim, mas não muito se acreditarmos.

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Obrigada Anónimo.

Patti disse...

Roubou e muito bem roubado.

CPrice disse...

Patti :)) dei-lhe outra volta .. mas se calhar tudo passa por brincar um pouco ao faz-de-conta, sim *