
A Paranóia das Previsões
Jorge Cabral
Somos amiúde encharcados com as mais diversas estimativas acerca do futuro. É de tal forma que a vida do País, e por conseguinte, a nossa também, parece estar pendurada numa forma de adivinhos que ora tenebrosamente, ora em tom festivo, anunciam respectivamente o Apocalipse ou a “Boa Nova”. É um autêntico carrocel de números que quando confrontados com a realidade pouco ou nada dizem, ou melhor, dizem-nos que quem os diz nunca os devia dizer e nem sequer lhe devíamos ter dado a chance de o fazer. Com efeito, como já não chegassem tais previsões, somos ainda massacrados com as correcções sistemáticas das mesmas, dado as primeiras nunca estarem certas.
Se atentarmos no que está por detrás da obtenção de tais números maquiavélicos facilmente nos apercebemos dos milhões de euros que todos os meses isso custa ao País e a enormidade de horas de trabalho inútil que representam. E para quê? Desculpem-me os génios da economia, mas eu gostaria de saber para quê? Só se for para desacreditar quem os divulga, mas até para isso são desnecessários porque tal é impossível; já não podem ser mais descredibilizados do que o que já estão.
O paradigma desta completa tontaria é o actual ministro da Agricultura. Nunca esta área esteve tão mal, mas esse senhor quando é questionado tem números que nunca mais acabam. Agricultura não há e os agricultores estão na completa miséria, o País compra no exterior, quase tudo o que consome e das pescas nem é bom falar-se, mas números e previsões não são coisas que nunca faltam. E mais ou menos, assim vai o País nas restantes áreas: - na Educação, os índices de alfabetismo mudam todos os dias e as previsões são as melhores mas quanto à Educação é o que infelizmente se sabe, os tristes casos recentes com a expressão máxima numa louca que se pretendia que ensinasse História, são bem elucidativos dos resultados com que podemos contar: - da Economia, do Trabalho e das Finanças é até melhor não dizermos nada para não estragarmos mais o dia aos nossos leitores e colegas de blogue.
Outra vertente em que esta doença é visível é na área financeira, com especial relevância para o Banco de Portugal. O seu governador (o assalariado mais bem pago do País) tem números, índices, ratios e previsões para tudo. Nada daquilo tem qualquer préstimo como se provou recentemente. Estas autênticas masturbações de números obnubilam esta gente quanto à verdade que é o país real e como consequência disso, não podem deixar de suceder as catástrofes resultantes de não se trabalhar a realidade, em prol dela e no concreto, fiscalizando, corrigindo, verificando, mas sobretudo melhorando através de uma estratégia pedagógica permanente, que tenha como objectivo único a optimização dos sistemas, das práticas, dos serviços e das instituições, sempre com vista ao bem do País como um todo.
Na realidade nada disto acontece, o batalhão de gente que engendra permanentemente estes números mentirosos e logo a seguir os que os vêm desmentir e assim por diante numa espiral de autêntica loucura, nem produzem nada que interesse ao País, nem deixam muitas das vezes que alguém o faça, porque encavalitados em pressupostos falsos, é comum desviarem-se dos rumos razoáveis que deveríamos colectivamente seguir. Não é por acaso que o País está assim.
Mas há até aspectos que se não fossem preocupantes poderiam fazer-nos rir pelo caricato que encerram. Já repararam todos que os agentes desta cabalística engrenagem quando divulgam a alteração de um cagagésimo relativamente aos seus homólogos anunciados semanas ou dias antes, o fazem com a mesma douta postura de quem nunca falha e como se estivessem a revelar os segredos da vida eterna? Com franqueza, será que esta malta se droga???
Em vez de se emaranharem em tudo isto, senhores ministros, pensem é, cada um na sua área em como fazer, NO CONCRETO, dia a dia, hora a hora, um País melhor, para que nós, que deveríamos estar na primeira linha das vossas preocupações possamos recuperar a dignidade como portugueses e a esperança de uma vez por todas esquecermos a vergonha em que nos colocaram, por sermos quase que fatalisticamente os mendigos e alvos da chacota permanente dos nossos “doadores”.






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