quarta-feira, abril 29, 2009

Baú das relíquias (12)


Quando transportava os meus filhos para a escola em Macau havia um companheiro de viagem que animava o trajecto com a sua excitação: "Boa, tio!... Passa esse, acelera mais!... Ganda curva!... Oh!... Já chegámos!". Esse companheiro era um miúdo que adorava a velocidade e eu tinha de me conter porque levava crianças dentro do carro. Por vontade dele, o carro deveria ir sempre a mais de 100 kms/h. Em conversa com o o seu pai avisei-o que o filho, um dia, acabaria por ser piloto de qualquer coisa: avião, moto, kart ou carros. O pai mandou-me logo à fava. "Era o que faltava, pá!"
O puto cresceu ao lado dos meus filhos e talvez tenha enraizado o bichinho da velocidade quando me viu a correr nas pistas. Curioso, perguntador, cliente diário da playstation, viria, mais tarde, a sentar-se num kart para uma corrida de crianças promovida pelo Departamento de Desporto no âmbito das actividades de férias dos jovens. O André Couto ganhou a corrida num abrir e fechar de olhos, deixando tudo e todos com a cara a banda. Só a mim não me surpreendeu. Quando lhe entreguei o capacete, disse-lhe: "André, isto é para ganhar!".
O seu pai ficou abismado e simultaneamente entusiasmado. Corrida após corrida, ano após ano, o André ganhava tudo. De campeão de Karting, em Hong Kong, acabaria por ingressar na Fórmula 3. Venceu a corrida dos campeões em Spa-Francorchamps e o Grande Prémio de Macau. Em Mónaco, na Fórmula 3000, deu "bigodes" a pilotos como Ralf Schumacher, Nick Heidfeld, Jarno Trulli, Felipe Massa, Juan Pablo Montoya e tantos outros que já passaram pela Fórmula 1. Certo dia, a almoçar com o Rubinho Barrichello, este disse-me: "O teu puto muito rapidamente vai estar a correr ao meu lado na Fórmula 1".
André Couto, o melhor piloto do mundo que eu conheci, depois de Ayrton Senna, infelizmente não nasceu milionário e o investimento para o ingresso na F1 abrangia na altura mais de cinco milhões de dólares e, assim, o mundo perdeu a grande oportunidade de conhecer um novo campeão à Senna. O André corre actualmente no Japão, onde ainda deixa os olhos em bico dos japoneses bem esbugalhados...
Aqui no 'Baú das Relíquias' encontrei esta foto dos tempos em que o aluno ensinava o professor...
Para o meu querido amigo André Couto esta singela homenagem com um abraço fraterno e um beijo especial para o seu filho.

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