Segunda-feira, Março 16, 2009

O sonho não comanda a vida

Jorge Rangel e João Severino, na Livraria Vector, primeiro espaço comercial
de venda de livros e jornais de Portugal, em Macau



"(...) Mas quem é a Bloom afinal? Talvez não seja nada que se veja. Uma malha invisível no padrão do território. Não é nenhum David contra Golias, afinal. Talvez seja apenas o desejo de duas pessoas que estavam com os sonos trocados e resolveram ficar acordados mais uns instantes e acreditar no impossível. Sonhar. E uns dias mais tarde, ou mais do que isso, criar uma livraria numa esquina da cidade em frente a um templo com mais de duzentos anos de existência. Porque havia essa necessidade e porque ainda há. (...)"

Este texto faz parte de algo que li na net num momento em que navegava por este mundo virtual. Diz respeito a um projecto que merece os maiores encómios por parte de todos os que ainda acreditam que é possível manter a cultura portuguesa em Macau. A livraria 'Bloom' pertence a dois jovens de grande talento e sonhadores q.b. como se pode ler. António Falcão e Teresa Freitas, proprietários da livraria-alternativa que existe em Macau há uns anos, manifestaram a sua estranheza por um convite que lhes foi endereçado pela Fundação Oriente para prosseguirem a sua actividade nunca mais ter tido continuidade, após as instalações da 'Bloom' terem sido devastadas por um tufão. Falcão e Freitas tinham já a obrigação de conhecer as especificidades de Macau. De quanto é difícil compreender os falsos amigos que estão tão prontamente a ajudar-nos como a espetar-nos a faca nas costas.

Entretanto, ao tomar conhecimento da polémica que se gerou em Macau com a venda eventual das instalações da Livraria Portuguesa, lembrei-me de imediato do dia em que abri no território o primeiro espaço para venda de livros e jornais em língua portuguesa. Tal como a imagem nos mostra, no dia da inauguração tive a honrosa presença do secretário-adjunto para a Educação e Cultura do Governo de Macau, Jorge Rangel. Na oportunidade, o ilustre governante louvou a iniciativa e desejou-me felicidades. Passados poucos meses, e quando a minha 'Livraria Vector' já estava a ter boa receptividade na comunidade portuguesa, eis que, as autoridades "lembraram-se" de abrir a 'Livraria Portuguesa'. Obviamente, que será escusado dizer-vos que a minha livraria foi à falência perante uma concorrência tão desleal. Vim a saber posteriormente que o meu prejuízo tinha resultado de uma 'guerra' de secretários-adjuntos onde ambos quiseram mostrar serviço...

Pois, agora que tanto se fala na Livraria Portuguesa, no seu encerramento, nas alternativas, na possibilidade de outro organismo se responsabilizar por aquele espaço de cultura portuguesa, volto à vaca fria. Se existem dois jovens apaixonados pelo sonho, pela cultura portuguesa, pela divulgação da língua portuguesa e que já deram provas de saber dirigir e promover uma livraria, por que não entregar a Antóni Falcão e a Teresa Freitas a gestão da Livraria Portuguesa? Ou estamos perante mais um caso em que o sonho não comanda a vida?...

4 pauladas:

f.m. disse...

Não o conheço. Venho de vez em quando ao seu blog. Fico admirada com uma coisa pelo que tenho lido. E por isso cada vez tenho mais consideração por si. Como é que você com um passado tão rico em coisas que só foram feitas para o destruir ainda tem a capacidade de ajudar a promover os outros. Conheço outros casos em que as pessoas ficam com o ódio natural por quem lhes fez mal e por tudo o que os rodeia. Conheci o António Falcão quando era fotógrafo e eu visitei Macau. Ficámos amigos e por isso venho aqui agradecer-lhe este post. Bem haja.

lusibero disse...

Por tudo o que nunca soube de si...
obrigada,JOÃO SEVERINO!Começo a aperceber-me de que você foi vítima de grande tramoia...Obrigada, por ser meu amigo, aqui e agora. Obrigada pela integridade das suas recordações, que ajudam a mantê-lo aqui connosco!Portugal nunca soube dar valor aos grandes...
Quanto à foto...bons tempos, meu amigo!

joão severino disse...

Agradeço muito a F.M. e à Maria tanta benevolência.
Abraço reconhecido.

Ricardo disse...

Muito bonito esse seu gesto de querer ajudar quem sonha e luta por causas nobres. Muito bonito mesmo! Infelizmente, todos nós sabemos que em Macau, como em Portugal, dificilmente vencem os mais esforçados...mesmo com provas dadas. Mas disso sabe o João muito bem, não é verdade?