
Na imagem, o governador de Macau, Vasco Rocha Vieira, recolhe a Bandeira Portuguesa, Dezembro de 1999
Um jornalista não guarda segredos. Contudo, sempre entendi que uma informação recolhida em resultado de uma ligação familiar e sobre a qual seja solicitada reserva, que o segredo é para manter. Aconteceu que logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 tive conhecimento que a estratégia de vários políticos do Partido Socialista e elementos do Movimento das Forças Armadas (MFA) era no sentido de se entregar Macau à China. No território houve logo alguém que recebeu o recado e que também defendeu a mesma tese, a qual foi severamente combatida pela influência do advogado Carlos Assumpção. A dúvida de tais pretensões ficou a pairar no espírito dos observadores políticos durante muito tempo. Dúvidas sobre a razão maior da pretensão das autoridades portuguesas em entregar Macau à China.
O assunto melindroso incluia um segredo diplomático e acordado entre as partes. Precisamente quando Portugal manifestou o desejo de reatar as relações diplomáticas, a China quis como contrapartida a entrega de Macau. Todavia, os chineses deixaram claro que não era assunto para resolver de imediato. Ficaria em banho-maria até ser oportuno. O segredo foi ontem publicamente desvendado.
Ontem, passaram 30 anos da assinatura do Acordo Luso-Chinês para o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países. A propósito da efeméride, o jornalista Abel Coelho de Morais, do 'Diário de Notícias', entrevistou o investigador Moisés Silva Fernandes, director do Instituto Confúcio. Numa das passagens da entrevista pode ler-se:
- O início das negociações marca também o início da discussão sobre o futuro de Macau?
Sim. O que se passou em 1979 é que foram assinados dois documentos: o comunicado conjunto, sobre as relações diplomáticas, e a acta das conversações sobre Macau, onde se assumiram uma série de compromissos referentes ao território, com a finalidade da sua devolução à China. Isto é, Portugal estaria disponível para iniciar as negociações sobre a devolução de Macau quando Pequim assim o entedesse.
- Isso era condição indispensável para o estabelecimento de relações diplomáticas.
Sim. O Governo de Pequim quis a devolução de Macau como contrapartida. Mas esta questão não devia tornar-se pública naquele momento. Porque a própria situação do território, com inúmeros refugiados provenientes da China, aconselhava o contrário.
- Lisboa considerou algum tipo de salvaguardas para a população?
Não fez nada nesse sentido. E a acta teve de manter-se secreta, chegando a ser dada como perdida...






1 pauladas:
Bem, a verdade é que nem a própria comunidade lusa em Macau sabia o que queria (ou pelo menos muitos dos seus repesentantes).
Poucos dias antes do 25 de Abril, foi aprovado oficialmente um voto de apoio à política ultramarina de Marcello Caetano. Mal se dá o golpe militar, o mesmo órgão enviou de imediato um telegrama de adesão ao programa da Junta de Salvação Nacional.
Ambas as declarações de apoio foram subscritas pelas mesmas pessoas, com excepção de Graciete Nogueira Batalha, professora de Português no Liceu de Macau e que não esteve para fazer essa triste figura: tendo votado pelo apoio a Marcello, recusou acompanhar o panegírico a Spínola e seus companheiros. Assim, a primeira declaração foi unânime e a segunda apenas por maioria.
Este episódio está relatado num livro da própria Graciete Batalha, "Bom Dia, S'tôra", que li já há bastantes anos (foi-me emprestado por um amigo e eu tenho o raro hábito de devolver o que me emprestam...) e que foi publicado pouco antes do falecimento da autora.
A esse episódio também se faz referência em http://sinico.blogspot.com/2006/03/80-anos.html?showComment=1141299000000 .
Por isso, já se sabe que na história recente de Macau há muito a encontrar: mas coerência, princípios e transparência não será o mais abundante.
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