
O prenúncio da nossa desilusão
Jorge Cabral
Há dois dias obriguei-me a ficar acordado até mais tarde do que o habitual, tal era a expectativa que depositava no conteúdo essencial do primeiro discurso de Barack Obama no Congresso.
Como qualquer mortal de boa fé, espero que o novo Presidente americano tenha a coragem para cumprir o que prometeu e realizar a única revolução que ainda nos pode manter alguma esperança em dias melhores.
Mas, apesar de reconhecer que se trata de alguém diferente, designadamente do cretino que ultimamente ocupou aquele lugar, o actual Presidente tem vindo a deixar-me um “sabor a pouco”, bem como um manancial de “lugares comuns” e de “lapalissadas”.
Espero de facto muito mais. Não só atitudes emblemáticas e de aceitação universal, porque, infelizmente este estado de coisas, chegou já a um tal ponto que é impossível salvar o corpo da evidente gangrena, se não tivermos a suficiente coragem para cortar o pé. E isso não se está a fazer!
Tudo continua praticamente como dantes, mantendo os mesmos cretinos que geraram as calamidades que estamos a pagar e nos vão custar os olhos da cara, a nós, aos nossos filhos e talvez ainda aos nossos netos. Todos eles continuam nos seus púlpitos, na mesma senda de corrupção, de gula fétida pelo poder, de ganância desmedida pelo dinheiro.
Com efeito, para além das trivialidades e dos anúncios de cartaz que o Presidente fez, em tal discurso, ele não dedicou uma única palavra à razão mais profunda da situação em que nos encontramos – a CORRUPÇÃO. É um facto indesmentível que é ela a causa dos desvios de fundos, públicos e privados, mas também da ascensão de gente desonesta e incapaz nos aparelhos do(s) Estado(s), na tenebrosa constituição de uma rede que os mantém e que não permite o acesso a quem não pertença a tal nojento grupo de gente para a qual tenho dificuldade em encontrar a terminologia correcta.
Através das piores, mais viciadas e mais impróprias estruturas, refiro-me às “máquinas partidárias”, ascendem ao poder central, ao poder local e a tudo o que possa gerar-lhes dinheiro. Para o fazer, dão algumas migalhas a caciques que a isso se prestam, para que se calem (nisto se enquadra, por exemplo berrante e aberrante, a insultuosa tabela de vencimentos de medíocres funcionários da RTP, ontem divulgada nos jornais e neste blogue).
A gangrena é geral e só alguém com o poder de um novo Presidente dos EUA, poderia ter uma voz audível e que se impusesse contra este estado de coisas. Mas Obama está a “passar ao lado” e eu acho que é tempo de não depositar muitas esperanças, porque de desilusões já estamos nós cheios.
Resta-me continuar a desejar que este sentimento seja só um logro, sobretudo provocado pelos sulcos de desânimo, tristeza, indignação e de raiva que os políticos, com raríssimas excepções, me têm infligido.






3 pauladas:
tem razao o jorge cabral tambem a mim me desilude que todos os fulanos que governam os paises nenhuns tenham a coragem de lutar contra a corrupcao que e o maior mal das sociedades e e aquilo que da forca aos abutres politicos.
Mas alguém acredita numa mudança profunda? Obama é só mais um Presidente que, desgraçadamente, carrega uma marca distintiva e que, por isso mesmo, e por suceder a um cowboy do Texas, tem a enorme incumbência de ser o receptáculo de gigantescas esperanças.
Cara Drª ou Dr. Blonde,
Não estou de acordo consigo.
Obama personifica a recusa do eleitorado em prosseguir com o paradigma anterior. O "aparelho" perdeu nestas eleições e depositou-se no Obama a responsabilidade da mudança. E ele prometeu-a. O mínimo que se pode esperar de um verdadeiro homem (não estou a falar de Pinócrates) é que cumpra o que promete!
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