
A vitimização
Jorge Cabral
1 – Dos Factos
O massacre que a Comunicação Social nos impinge sempre que surge qualquer notícia fora do vulgar, é bem a demonstração do deserto de qualidade em que esse “poder” se transformou. Repetições inusitadas que são levadas muito para além da exaustão: explanações com extensões despropositadas que mais parecem exercícios de culto da pessoa que as profere; comentários impossíveis de ouvir e que se transformam desde o primeiro minuto em torturas inadmissíveis: todos falam, todos sabem, todos presumem e adivinham, em orgias de masturbação intelectual que nos maltratam, afligem, deprimem, angustiam e por fim, lá muito para além, nos indignam, pelo menos a alguns.
Assim acontece com o caso da actualidade, cujo nome até já me custa proferir. Na verdade, no meu subconsciente já se está a formar uma barreira, um antídoto que me ajuda a “desligar” quando alguém profere as primeiras sílabas da torturante palavra. E, perdoem-me a falta de modéstia, mas arrisco que, mais cedo ou mais tarde, isto se passa com quase todos.
2 – Das Consequências
Atentos os factos supra enunciados, eis que, muito diferentemente do que tudo isto parece ser, me assalta uma outra ideia de realidade:
Será que isto é exactamente assim, como parece ser, ou será que a verdade está escondida e tudo isto não passa de mais um embuste, com intenções escusas e inconfessáveis?!
Pois a mim, parece-me que esta 2ª hipótese é bem mais plausível. Senão vejamos:
i- Estamos inseridos numa sociedade onde a vitimização costuma dar óptimos resultados a quem a assume, para além de um valiosíssimo protagonismo, em certos momentos, claramente fundamental.
ii- A concentração das atenções em casos “controlados” é o ideal para que outros, muito menos geríveis e mais perniciosos, passem ao lado.
iii- Quem tem poder neste País, geralmente não precisa de ter qualquer receio da Justiça.
iv- E não há nada melhor que identificar-se um inimigo exterior, para cerrar fileiras internas.
Ora bem, nestas três vertentes, as vantagens são todas do eng. Sócrates, e são imensas. A saber:
i- Com esta lebre o eng. Sócrates consegue, e tem sabido aproveitar, imperdíveis “tempos de antena”, onde é nítido o envio de mensagens eleitoralistas, designadamente sobre a sua incorruptibilidade, honestidade, respeito pelo cumprimento integral da Lei, etc., etc..
ii- Quanto ao desvio das atenções, lembro tão só que qualquer dos casos que abaixo enumero, são muito mais difíceis de resolver que esta trica de corrupção (infelizmente já tão vulgar neste País):
ii-1- Grave situação no ensino, onde a balela da boa intervenção no 1º ciclo, não apaga a chaga em que se transformou, gerando licenciados inaproveitáveis e professores frustrados. É que, o baixíssimo nível das nossas faculdades, principalmente das privadas, é já hoje o grande responsável pela multidão (perto de 50.000) de licenciados desempregados.
ii.2- A miséria na nossa sociedade grassa e são cada vez mais as situações de desespero medieval em que muitos portugueses já se encontram. O povo português é hoje um conjunto de pessoas, sem vontade, sem rumo, sem estímulos, sem dignidade e sem perspectiva de futuro, que vive amargurado com o que poderá vir a ser a vida dos seus filhos e dos seus netos, isto, devido à incapacidade, à mediocridade e ao crime em que se transformou o exercício do poder em Portugal, pelos moluscos a que temos chamado “políticos”.
ii.3- A gravíssima situação da Saúde e da Justiça.
ii.4- O que se está a passar com a Banca e a forma com se tem tratado (premiado) a acção perniciosa destes agentes económicos e de toda a cáfila de criminosos especuladores que se apresentavam há menos de um ano à sociedade, como se de reizinhos se tratasse.
ii.5- As trupes dos combustíveis e o seu saque ganancioso e permanente, com a complacência, para não dizer mesmo auxílio, dos organismos que deveriam controlá-las.
ii.6- O desnorte em que o Governo se encontra, atirando gasolina para a fogueira, com chavões, como seja o consumo de verbas que nem existem, em “investimentos” megalómanos, num momento em que o risco de morrerem portugueses à fome, é cada vez mais assustador. Com um aspecto que a meu ver é criminoso, que é o facto de ninguém pesar, técnica, séria e profundamente, todos os reflexos deste esbanjamento de recursos.
ii.7- Na sequência do ponto anterior, há que ter sempre presente o volume da nossa dívida externa. Ele é de tal forma que se não estivéssemos na UE e no “Euro”, já teríamos tido um destino bem pior que a Islândia. Todavia, só mentes doentiamente alucinadas conseguem menosprezar um problema destes.
ii.8- O aumento de 2000 desempregados por cada mês que passa; o fecho sistemático de empresas cuja solidez há dias, ninguém questionava; a ferocidade fiscal para obnubilar a realidade; etc., etc., são tudo questões sérias que desta forma passam a segundo plano e de que já quase ninguém quer saber.
iii- E quanto às consequências dos “poderosos” deste País em termos de Justiça? Nada! Pois a excepção confirma a regra e a regra chama-se Vale e Azevedo.
iv- E por último. Quem é que tem dúvidas da verdadeira intenção da atoarda que ontem foi notícia do ataque de Marinho Pinto aos procedimentos de investigação judicial? A mim, parece-me descabido que um Bastonário da Ordem dos Advogados, em lugar de dirimir as suas razões e de tentar impor a legalidade, com os imensos meios e poder que tem, quer no País, quer mesmo recorrendo aos tribunais comunitários, venha, inconsequentemente fazer afirmações, como se de qualquer vulgar e impotente cidadão se tratasse, em conversa de café.
Ou seja, vire-me para onde me virar, nesta saga, só vejo vantagens para o primeiro-ministro e para o PS. De outra forma, talvez estes meses até às eleições fossem muito difíceis de atravessar!…






5 comentários:
Bom artigo. Esta é uma grande verdade.
peregrino51
o zé do telhado
sempre foi muito apreciado.
nas noites de inverno o meu avô materno lia em 1940os fascículos da história do bandido lampeão, o rei do canganço.
a história repete-se
Jorge Cabral
o que escreve tem lógica. O Sócrates é muito esperto. Ficar como vítima é um bom truque que o pode salvar da queda...
se o socrates não abala depressa o homem tem um ataque coração tal é o ódio que lhe tem, e depois o outro é que é anormal, enfim grandes intelectuais, e donos da verdade, eu acho que existe ai alguma dor qual!
Não sei
Caro d3099
Lamento desiludi-lo mas tenho que lhe dizer com frontalidade e franqueza que neste momento, em prol de Portugal e dos portugueses, o que eu mais desejaria era que Sócrates governasse bem. Por duas razões:
-primeiro porque penso que a instabilidade é um factor agravante do mau momento que atravessamos e
-em segundo lugar porque considero que quem se perfila na oposição é alguém que já deu provas de gritante incompetência.
Vê, caríssimo?! era bem melhor que tivesse mostrado um pouco mais de capacidade de vivência democrática e tivesse admitido as críticas.
Afinal, a dor está do seu lado, pelo meu, está tudo tranquilo.
Saudações francas e democráticas.
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