
Parlamento e infracultura
por J. C.
Estou a seguir em directo o debate e votação na especialidade do Orçamento de Estado no Parlamento. O panorama de subcultura é desolador. A começar pelos tratos de polé que a língua portuguesa sofre, até à imagem de um certo caudal de deputados que tende a engrossar.
Tiro o meu chapéu a Francisco Louçã, que conseguiu fazer vingar a política de camisa aberta. O estilo foi outrora inaugurado, ainda no PREC, por um irrequieto deputado da extrema-esquerda (o precocemente desaparecido Acácio Barreiros), que aprendeu um dia a fazer nós de gravata quando se passou para o PS. Hoje, vai-se banalizando o número de deputados que seguem o exemplo reposto. Com uma diferença: Louça não usa mesmo gravata e não se sente tentado pelas camisas à padre (e apertadas no pescoço) de que Judas (o socialista) gostava; quanto aos outros, usam-na, sim, mas cada vez mais a usam apenas fora da Assembleia da República. Para o hemiciclo, qualquer dia vão até de fato-de-treino e sapatilhas.
Perguntarão os leitores: mas isso é importante? Claro que não é. É só a rentabilização do traje que vestem ao sábado de manhã para ir ao centro comercial. Mas não deixa de ser espantoso ver um deputado de camisa aberta e o topo da peitaça à mostra a usar da palavra na tribuna e a tratar os seus pares por «vossa excelência». Quando os centros comerciais frequentados pelos parlamentares passarem a ser órgãos de soberania, prometo não falar mais no assunto. Até lá, enquanto os bons costumes do País continuarem a mingar, continuarei a achar isto um sinal de infracultura...






9 comentários:
J.C.
Com toda a estima e respeito que nutro pela tua pessoa não posso deixar de estranhar o atropelo à inteligência que consiste em considerar como sinal de infracultura a circunstância dos deputados se apresentarem de camisa aberta (leia-se sem gravata)...Não estarás a ser algo preconceituoso? O que tem isso a ver com os bons costumes?
Abraço
J.B.
Dediquei-lhe um álbum no Omissão Impossível. Espero que goste.
J.B., a tua pergunta merece-me estima e respeito e, por isso, tem resposta. Eu próprio, como se lê no texto, fiz a mesma pergunta com outras palavras: «Isso é importante?» E respondi: «Claro que não é.» Vejamos.
Estamos ambos cheios de receber convites para isto e para aquilo e a norma é sermos informados desta coisa simples: «traje de passeio», «traje de cerimónia», «traje de noite», etc., conforme os eventos e as ocasiões. Trata-se de um costume e, como tal, é cultural.
Nada tenho contra a camisa aberta e a abolição da gravata, embora não seja um costume, porque está por consagrar. Mas o meu modesto texto, afinal, é uma mera metáfora. O que importa é o que se passa no Parlamento. E o que se passa é que muitos deputados, que são membros de um órgão de soberania, cada vez mais vão até lá como quem vai às compras, abrem a boca e dizem as maiores calinadas em português suburbano. Isto é subcultura.
Viver em sociedade implica regras: aquilo a que chamamos vulgarmente usos e costumes. Ninguém vai, por exemplo, beijar a mão à rainha de Inglaterra em mangas de camisa. São preconceitos? Não. São conceitos, só isso.
Fossem os nossos parlamentares conhecedores do respeito que devem inspirar e, sobretudo, fossem eles minimamente cultos que até podiam ir para o hemiciclo naquela espécie de camisolas interiores à pedreiro que agora se usam. Até porque nunca iriam assim. Contudo, no panorama actual, já faltou mais.
As metáforas são boas para isto, para ilustrar a infracultura que grassa. Falei de gravatas? Podia antes falar da língua maltratada, do chorrilho de asneiras, da fraca noção de decência e da ignorância das regras de convívio civilizado. Deu-me mais jeito falar de gravatas...
Adorei, caro Parrovski. O 'Omissão Impossível' é o melhor em música. Abraço
Cum caneco que este JC não é para brincadeiras.
Nem de propósito, J.B.: continuo a seguir em directo o debate no Parlamento e acabo de ver a mesa a dirigir-se ao secretário de Estado que está a falar em pé para os deputados. Jaime Gama disse: «Senhor secretário de Estado, pedia-lhe que não voltasse a usar a expressão 'vocês'.»
É a infracultura, meu caro. Quando ele deixar de ser secretário de Estado e vier a ser deputado (que é o mais provável), há-de aprender a dizer 'vossas excelências'. Com a peitaça à mostra...
Touché meu caro J.C....Provoquei-te propositadamente e, agora sim, alcanço a profundidade do comentário e vergo-me, esmagado pela inteligência e sentido de humor subjacentes...
É um privilégio conhecer gente como tu... Pena tenho que a responsabilidade do poder, tantas ou a maior parte das vezes, confiado a quem casual e oportunisticamente milita partidariamente nos partidos do arco governativo(leia-se alforge de presente e futuro poder)não seja entregue a quem com inteligência se devote ao serviço dos outros que mais precisam, os que não possuem voz, estatuto ou capacidade de exigir...Gente que, independentemente do uso ou não de gravata, ou ainda eventual da militância em qualquer ou nenhum dos partidos, saiba em cada momento interpretar os sinais dos tempos e as necessidades do País e Povo em que se insere...com a inteligência igual à que possuis
Grande abraço J.C.
J.B.
Meu caro J.B., inteligente é a forma civilizada (por sinal, a forma amistosa, já que nos conhecemos há muito) como nos respeitamos, mesmo se não estivermos (sobretudo, se não estivermos) de acordo.
Foste muito mais longe e muito mais certeiro do que eu, na modesta metáfora que elaborei. Vou reler-te com gosto. E, cá entre nós, sem gravata. Porque o sentido de elevação nem de colarinho e punhos precisa...
Abraços.
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