Como o velho histórico deve passar horas e dias na Internet...
Mário Soares continua a publicar uns artigos no DN que me deixam algumas dúvidas se serão escritos pelo próprio. Vocês imaginam o senhor com aquela idade a navegar horas e dias a fio na Internet? Eu também não. A verdade é que no seu texto de hoje ao abordar o problema dos professores, Mário Soares, que se diz amigo e admirador da "dra. Maria de Lurdes Rodrigues", sublinha algo de estranho e surpreendente, ao referir o seguinte: (...) Reconheça-se que os sindicatos foram de algum modo ultrapassados - pelo menos na última manifestação, dita espontânea, convocada pela Internet - por grupos de professores e de pessoas indeterminadas, com interesses contraditórios, estranhas aos sindicatos, mas interessadas em derrubar o Governo, sendo que a luta contra a ministra parece ser instrumental, para chegar ao primeiro-ministro".
Ora, aqui temos um Soares internauta q.b.... que até viu na Internet os grupos de professores a pretender derrubar o Governo...
Ora, aqui temos um Soares internauta q.b.... que até viu na Internet os grupos de professores a pretender derrubar o Governo...






10 comentários:
Meu caro João
Não percebo as tuas dúvidas...
A provecta idade impede alguém de navegar na Internet, de ser ienternauta? Não estarás a confundir a realidade, tal o afã de alinhar com os sindicatos que pretendem cavalgar uma onda de contestação ao actual Governo? Não será mais inteligente aprofundar casuisticamente as razões para as discordâncias? Ainda não percebeste que a onda de contestação assumida pelo líder da FENPROF, Mário Nogueira, do comité central do PCP, pouco ou nada tem a ver com a aplicação do processo de avaliação de desempenho dos docentes mas antes com o seu projecto pessoal de liderança da GGTP ou até do próprio PCP?
É que os professores, na sua generalidade, pouco ou nada têm a ver com os sindicatos mas antes com estados de alma e emoção, compreensivelmente corporativos, que decorrem dum conjunto de circunstâncias que passam designadamente pela perca dum conjunto de regalias que só existiam neste País à beira mar plantado!!!Uma parte das regalias perdidas são comuns à generalidade dos funcionários públicos do teu País...ou seja, adiamento da idade para a reforma, congelamento de carreiras, horário que obriga a uma permanência na escola por mais tempo...Outra parte resulta da necessidadee de adequação do sistema aos tempos de maior competitividade...avaliação de desempenho, maior rigor na prestação da actividade, necessidade de consciência da importância da educação e do ensino no futuro de Portugal...
Abração
J.B.
Caro J.B.
Gostaria de não ser mal interpretado.
Nada tenho contra as pessoas de idade e que consigam, felizmente, navegar na net. Comuniquei durante muito tempo como uma idosa australiana de 92 anos. Momentos de felicidade inolvidável. Simplesmente estranhei que Mário Soares com o tempo tão ocupado ainda lhe sobrasse tanto para se aperceber que a manifestação de 120 mil pessoas resultou de uma mobilização internauta.
Não possuo qualquer afã em alinhar com sindicatos de índole política semelhante à que na hora em que na minha vida necessitei deles, num conflito laboral com a RTP, viraram-me as costas.
Resumo-me insignificativamente a defender a voz de uma maioria de professores que, talvez náo sindicalizada, tem rejeitado o sistema de avaliação lançado pela ministra da Educação.
Por outro lado, ficaria muito satisfeito se simultaneamente à retirada dos privilégios que referes aos funcionários públicos fosse implementada a retirada de muitos privilégios que usufruem ministros, secretários de Estado, gestores públicos, autarcas e deputados.
Abração
Caro João
Estás como vinho do Porto. Quanto mais velho melhor para ler o que escreves. Esta resposta a JB é impecável, sem mácula. Gosto de vir ao PPTO.
Meu caro J.B., vou meter-me no assunto.
1 - Toda a gente sabe que Soares não navega na Internet. Alguém o fará por ele, que é preguiçoso e não tem pachorra até para coisas muito mais corriqueiras. E isso não tem mal nenhum: ele é um senador. Mas a ironia do 'post' definitivamente não o belisca.
2a - Esqueçamos o Mário Nogueira. Cresce a insatisfação entre os portugueses. Infelizmente, mas é natural. E os professores não constituem excepção. Ou melhor: são excepção, sim: além das aulas, das reuniões escolares, da preparação da matéria a dar, de receber os encarregados de educação, de receber os alunos, de acompanhar os mais atrasados, de preparar testes e de corrigi-los, têm (?) agora uma catrapásia de papéis para preencher, nos quais se inclui a avaliação profissional dos seus colegas de outras disciplinas para progressão na carreira.
2b - Ora, com professores do ensino secundário na família há várias gerações, eu nunca conheci um professor que não queira progredir por mérito. Os que conheço, aliás, sempre foram avaliadosao longo do tempo. Trata-se, então, de alterar o método de avaliar? Pois que se altere, mas para o melhorar.
2c - Não me cheira que melhorar seja ocupá-los mais com papelada sem fim, impressos ao quilo e atribuição de valor subjectivo aos seus colegas (incluindo os mais antigos e os mais qualificados).
2d - Concluindo: a meu ver (e tenho constatado que não estou só), o critério de avaliação teimosamente em causa já nem é burocrata e complexo: é esquizofrénico...
Estimado João Severino
Desculpa insistir, mas, parafraseando Levi-Strauss "...com o aparecimento da linguagem, de repente o Universo inteiro tornou-se significativo..." O facto de haver um enorme número de professores a contestar a avaliação (presumo até que será a maioria, embora não existam números rigorosos)não significa que estejam certos, defendam o que é justo e melhor para o sistema de ensino ou para o País...A circunstância de se tratar duma classe profissional
qualificada obriga naturalmente a que se procure entender com clareza o que está em causa, pois nada mais natural do que os actores em causa (professorees) lutarem por reinvidicações que tenham a ver com os seus interesses profissionais...Resta porém saber se os motivos que alimentam a luta dos professores são, no mínimo justos e inteligíveis, ou se não resultam duma leitura puramente emocional da sua situação laboral...não consentânea com os tempos e a realidade dum país europeu que carece, como de pão para a boca, dum sistema de ensino que coloque na primeira linha de preocupação a alteração dos tristes e confrangedores resultados e indicadores do nossso sistema de ensino, do imenso abandono escolar existente...Portugal, em termos de resultados do sistema de ensino está na cauda da Europa...E, entre outros, os docentes não são alheios a esses resultados...As mudanças justificam-se...E já se sabe que qualquer mudança acarreta necessariamente resistência...Importa, por isso, não perder a lucidez e procurar, com seriedade, perceber tudo o que está em causa...
Grande abraço
J.B.
Ainda bem que J.B. voltou para dizer o que disse: «O facto de haver um enorme número de professores a contestar a avaliação não significa que estejam certos (...)» Esta é uma versão tímida de um velho princípio: nada garante que as maiorias tenham necessariamente a razão.
Pelo mesmo motivo, nada garante que a maioria socialista tenha necessariamente a razão. Mas é essa maioria que governa, mesmo que houvesse uma minoria com a razão do seu lado. Porque é que é assim? Simples: porque não se governa um País contra os seus eleitores. Ora, do mesmo modo, não se governa a Educação contra educadores e educandos...
Meu caro j.pitágoras
Não posso, por delicadeza e amizade, ignorar os teus comentários a propósito desta saudável e interessante questão. Também eu possuo familiares que são docentes, designadamente a minha mulher...Bem vejo e compreendo a sua angústia relativamente a todo o processo reformista levado a cabo por este Governo. Tenho plena consciência de que, na sua esmagadora maioria,os docentes querem progredir na sua carreira com base no mérito e não no mero decurso do tempo. Mas também sei que estão perfeitamente revoltados com todas as medidas que foram tomadas no âmbito da sua qualidade de professores e de funcionários públicos o que os impede, muitas vezes, de possuir a distância e racionalidade para aferir todos os interesses que estão presentes... A questão do modelo de avaliação é apenas a última das dificuldades. Reconheço que o modelo não é perfeito, pode e deve ser melhorado, tanto quanto sei, da parte do Governo existe essa vontade e disponibilidade, mas também não ignoro que as várias posições dos actores políticos, que estão no terreno ou que neste momento pisam o palco da política, são pouco coincidentes com o interesse nacional ou com a questão propriamente dita da avaliação do desempenho dos docentes...Estamos em ano de eleições e não sejamos ingénuos...Neste momento o que importa à maioria dos políticos é conservar, nuns casos, ou noutros, conquistar o poder...
Um grande abraço para ti eng.j.pitágoras
J.B.
Bela resposta ao J.B.!
Todos nós nos lembramos de muitos dos professores que tivemos na primária e no liceu. Será que as características daqueles que mais nos marcaram positivamente e ajudaram a ser gente seriam de algum modo valorizadas neste modelo de avaliação de professores que tanta gente tem comentado, como se de repente fossemos todos especialistas em Educação?! Estão a ver esses bons professores do nosso tempo a ser avaliados com grelhas do tipo das que o Ministério impõe?! E acham que íam ser estas burocracias a distinguir os bons dos maus?Francamente!
Meu caro,
O Mário não vê um boi na Internet.... Certezinha sem pontinha de dúvida!
Acho bem, caro J.B., ter em conta os objectivos difusos que se posicionam para tirar proveito do clima de insatisfação, por um lado, e do período eleitoral próximo, por outro.
Essa é mais uma razão para aguçar o engenho e trabalhar para um modelo de avaliação adequado que envolva as partes interessadas. Ora, não parece que um braço-de-ferro deixe livres os movimentos para meter mãos à obra.
Acontece que firmeza e tolerância, como a determinação e a sensatez, podem perfeitamente andar de mãos dadas. Porém, este governo deu sempre uma imagem oposta a isto. Claro, ninguém é perfeito, mas os tiques de arrogâcia têm consequências nos momentos mais tensos.
O exercício político tem agruras. Por norma, a oposição é sempre minoritária ou dividida em minorias. Na(s) oposição(ões), os políticos manifestam-se pelas posições que assumem. Já aos não-políticos, resta o exercício cívico exercido pontualmente e que costuma envolver suor e barulho.
Que fazer? Bem, quem não gostar do exercício político e do que ele comporta não é obrigado: escusa de engolir o que não consegue digerir, afasta-se e deixa o lugar a outros. Caso contrário, tem de estar disponível para recuar, corrigir, repensar, dialogar e assim por diante.
No caso vertente, a realidade até parece simplificada à partida. Porquê? Porque, mesmo que seja verdade haver uns quantos que não querem qualquer modelo de avalição, jamais o confessarão. Portanto, é simples: se os professores sempre foram de algum modo avaliados, se os outros países também consagraram diferentes modelos de avaliação, agucem o engenho e trabalhem num modelo adequado, exequível e tão justo quanto possível.
O critério de avaliação em causa lembra-me a declaração anual do IRS: todos os anos mudam os modelos e contém não-sei-quantos impressos obrigatórios e alternativos. Não há pachorra para o cidadão comum e é um quebra-cabeças para os menos letrados. Tanto quanto possível, devia resumir-se ao essencial: recebi X daqui, descontei Y dali e junto em anexo os comprovativos Z; agora trabalhem, que é para isso que o Estado vos paga, confiram o que declaro e façam as contas para ver se batem certo.
Ao invés, este País está cheio de funcionários que acham que o que é simples não é credível e que cultivam a burocracia. Resultado: só acrescentam mais repulsa ao desagrado. É por isso que o governo está a tentar passar de processos de avaliação talvez incipientes para modelos porventura tão picuinhas que geram logo rejeição. Além de impraticáveis e dos parâmetros duvidosos, porque é que há-de querer passar-se do 8 para o 80?
No clima geral a que assistimos, convém ter presente isto: antes da firmeza e determinação, vem a tolerância e sensatez. Era esta a fase que se esperava e, quanto mais o governo falar em inflexibilidade, mais longe estará dela. Por muita razão que lhe tivesse, ninguém atura arrogância por muito tempo. É humano: faz azia...
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