- Está lá?... Quem fala?
- Sou eu!... O primeiro-metalizado! Como está, o senhor director?
- Ah!... Mas que surpresa, senhor primeiro-metalizado... mas... o senhor tem tantos assessores e está a ligar-me directamente...
- É como diz, caro director! Sabe que estou a ligar-lhe porque fiquei muito chocado com o que o seu jornal publicou...
- Como assim, senhor primeiro-metalizado?
- O seu jornal anda a publicar falsidades, a inventar factos que nunca aconteceram... quero dizer-lhe que estou a interpretar este modo de fazer jornalismo como uma perseguição à minha pessoa e ao meu governo e sendo assim terei de lhe adiantar que o jornal poderá vir a ficar em muitos maus lençóis...
- Mas por aqui na redacção não temos camas!
- Não brinque comigo, senhor director! Fique sabendo que essas falsidades sobre o financiamento dos partidos vão ficar-lhe muito caras! Posso já adiantar-lhe que todos os anunciantes que simpatizam comigo e com a cor do meu cabelo irão considerar a retirada de publicidade do seu jornal!
- Mas, ó senhor primeiro-metalizado, eu por acaso não gosto da cor do seu cabelo, nem da dos seus calções com que faz jogging para inglês ver e muito menos da cor das suas gravatas pirosas que são de um monocromático pimba até dizer chega...
- Eu é que lhe digo que já chega de tanta afronta do seu jornal e digo-lhe mais...
- Diga...
- Irei falar com o patrão do seu jornal para que o senhor director dê o lugar a outro!
- Já estou cheio de medo, senhor primeiro-metalizado. O que lhe posso dizer muito claramente é que o senhor não sabe o que diz e nem lhe admito que telefone aqui para mim a pressionar-me e a tentar que o meu jornal se transforme num pasquim como alguns que andam por aí a vender a alma ao diabo em troca de um canalzinho de televisão...
- E o diabo sou eu?... Pois fique sabendo que acabaram as notícias falsas, ouviu bem?
- Eu ouvi tudo! Mas o senhor primeiro-metalizado não tem razão nenhuma porque efectivamente alguém do seu governo mexeu no Orçamento de Estado e alterou o texto de modo a tentar que sem ninguém dar por isso ficasse preto no branco que os partidos passavam a receber o carcanhol na mãozinha, percebeu, senhor primeiro-metalizado?
- Eu não percebo nada... Desculpe, só um momento... está aqui o meu chefe de gabinete a dizer-me qualquer coisa... (mudando de tom) sim, sim... como? E só agora é que me diz isso?... então, quer dizer que o tipo redigiu aquilo e não disse nada? OK, OK... Está lá?...
- Estou sim!
- Ó meu caro director, você desculpe a conversa que tivemos e esqueça o que lhe disse. Afinal, informam-me agora que sempre houve alguém que mexeu no Orçamento de Estado e queimou-nos...
- Queimou-se aonde, senhor primeiro-metalizado?
- Quer dizer... é uma forma de expressão!
- Não acho! É que queimado já o senhor anda há muito tempo desde que telefonou para o José Rodrigues dos Santos...
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3 comentários:
Caro Amigo
Esta sim é a ficção que me faz relembrar e reviver, recordando velhos tempos, o Grande Jornalista que é, foi e será o João Severino.
Já era tempo de ser redimido das injustiças a que tem sido sujeito, particularmente na última dezena de anos, mas não só pois o seu calvário de perseguições começou, tanto quanto me consigo recordar, logo após o 25 de Novembro de 1975.
Muitos parabens pela tuas perseverança e coragem.
Um forte abraço.
J.R.
Obrigado J.R.
É muita amizade da tua parte. Mas que faz bem ao ego, garanto que faz.
É verdade, sim, o sofrimento começou no dia 27 de Novembro de 1975, com dois bebés nos braços para criar.
Parabéns pela coragem em denunciar esses vigaristas....metalizados.
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