O Domingo é, para quase todos nós, mais do que um dia de semana, um estado de espírito; e um estado que é de espera e triste resignação, que se vai carregando à medida que as horas passam, a luz quebra e o tempo livre cede lugar ao tempo marcado, contado, destinado a perder-se, sem memória, no fluir da vida. Para mim também era assim. Mas 2008 e o meu blogue vieram libertar-me da melancolia, dando um sentido aos meus Domingos. Os Domingos revelaram-se-me, de repente, os melhores dias para as minhas expedições fotográficas, porque têm menos agitação nas ruas, menos carros e menos correria; e porque se enchem de turistas, entre os quais posso camuflar-me e manobrar sem criar estranheza. Aos Domingos, portanto, aí vou eu de máquina em punho, bem domingueira. E nestas incursões dominicais por Lisboa, tenho feito maravilhosas descobertas, sítios que nunca tinha visto como agora vejo, espaços de cultura que desconhecia ou de que não tinha lembrança, recantos inesperadamente cuidados, frescos e acolhedores no meio de uma cidade que arrasta os pés num caminho que entrevejo sombrio e particularmente tortuoso, sob a ameaça da muralha de contentores de Alcântara e de cem mil outras obscuras «negociatas». Fiz uma dessas maravilhosas descobertas no Domingo passado. Deambulava pela Graça, com destino a Alfama, mas fui desembocar no Largo de São Vicente. E propondo-me rever o Mosteiro e os seus terraços e exposições, dei por mim num pequeno pátio de entrada, de reminiscências mediterrânicas, com uns bancos de jardim e umas mesas abrigadas sob latadas de buganvílias, uns limoeiros, uns pardais, um tanque comprido, recebendo água de umas bicas emolduradas em azulejo velho, e um guitarrista, dedilhando uma melodia clássica, que podia ser de Sor ou Villa-Lobos. Sentei-me na borda do tanque e o tempo parou. E no embalo daquelas doces e dolentes seis cordas, de olhos emocionados com a límpida harmonia daqueles brancos, verdes, azuis e encarnados, senti-me, como há muito não sentia, numa perfeita paz.
Luísa, in Nocturno (nossos links)






1 comentário:
Os meus agradecimentos, João… na esperança de que tenha tido um excelente Domingo! :-)
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