Gosto de uma boa discussão. Sempre gostei. Gosto de construir - e «desconstruir» - argumentos, de jogar com grandes tiradas, raciocínios vistosos, afirmações cabais, de virar contra o interlocutor a sua própria lógica, de colocar, no percurso argumentativo, pequenas armadilhas, e de lhe introduzir inesperadas mudanças de rumo e contra-sensos, recuando momentaneamente para recuperar forças… E também gosto de vencer uma boa discussão, ainda que me frustre o silêncio a que, por vezes, se recolhe a outra parte, que me priva do poder de gerir (e perpetuar) a disputa e tem um inegável sabor a derrota. Pois foi este gosto polemista - que é quase um instinto - que decidiu a minha escolha profissional e que me facilitou o trabalho académico. E era esse mesmo instinto que, ainda não há muito tempo, me puxava ao terreiro do debate ideológico com um fervor e uma intrepidez juvenis. Mordia qualquer isco. E chegava ao ponto de ficar dias a fio a rever mentalmente o dito, o não dito e o mal dito, e a reformular as intervenções infelizes. De discussão em discussão, algo, porém, foi mudando, imperceptivelmente. Noto que fui perdendo combatividade, ou perseverança, ou alguma coisa em que ainda não pensei. Mas cada vez me empolgo menos. E sem verdadeiramente conciliar ideias, concilio. Já nem sequer tenho pejo em depor miseravelmente as armas ou escapulir em ziguezagues de raposa matreira, se a trégua o exigir. Digo-me, a mim própria, que o meu gosto se reconverteu; e que, para além do conhecimento de diferentes perspectivas, só subsiste enquanto aplaca animosidades e tensões, pela descoberta, na esgrima das palavras, da afinidade de um mesmo prazer desportivo; e que se perde no ponto – e há sempre um ponto – em que começa a realçar e a assanhar as diferenças, em detrimento do desporto (e do desportivismo). Digo-me que a harmonia vale bem o sacrifício de uns quantos reveses intelectuais… Nego veementemente a evidência de que me faltam argumentos sérios para sustentar discussões sérias.
Luísa, in Nocturno (nossos links)
Nota: assino por baixo
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2 comentários:
Obrigada, João. Há um princípio de gestão que diz que, quando cem pessoas estão de acordo, noventa e nove são desnecessárias. É um princípio errado, que me confundiu durante muitos anos. Como se comenta do outro lado, estar de acordo – ou estar em consonância - é a melhor base para conversas interessantes e construtivas… O que não significa repetir irracionalmente, ou medrosamente, ou sabujamente os pensamentos dos outros, como parece estar a acontecer neste nosso pequeníssimo país político, por isso mesmo sem ideias. ;-)
Sabe que mais, Luísa? Você deve ser uma pessoa muito interessante para conversar. É pena que este mundo virtual não permita o real quando existe algum interesse.
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