domingo, setembro 28, 2008

i.m@il (33)

Sugeri-lhes que aderíssemos, senão por convicção, ao menos por desfastio, ao programa de boicote às gasolineiras proposto pela DECO. A resposta foi que não valia a pena, que não adiantava nada, que os outros iam cortar-se e que eles não eram tansos. É um curioso complexo, este «complexo do tanso». Impõe-nos, na prática, que não façamos nada, para que terceiros, que também não fazem, nunca beneficiem, nem possam rir-se de ter beneficiado do que poderíamos ter feito. Para nós, portugueses, é um complexo grave, porque encontrou aqui terreno propício à implantação. E é já um dos primeiros responsáveis pelas infinitas cadeias de inacção que estão a vedar-nos o caminho do desenvolvimento – ou a apontar-nos o do «brando futuro». Talvez sejam a pequenez e a periferia que nos tornam tão susceptíveis. Ou talvez não. O certo é que estamos dispostos a tudo - ou quase tudo - para não correr riscos de abuso e zombaria alheios. Para não sermos tansos, somos desconfiados, egoístas e cépticos. Para não sermos tansos, não investimos entusiasmo nem energia em nenhuma causa social. Para não sermos tansos, não entramos em aventuras colectivas, se não for para evitar que o Estado nos vá aos bolsos. Para não sermos tansos, não trabalhamos mais, nem melhor, para patrões que, como se não bastasse, ainda são portugueses como nós. Para não sermos tansos, «vamos com muita calma», mas, de preferência, «ficamos na nossa». Felizmente que há no mundo uns quantos que não se importam de ser tansos, como esses que nos têm dado a mão para nos conservar europeus. Quanto a nós, que tansos não somos, não cedemos a estímulos nem pressões, e prosseguimos no mesmo ritmo de sempre, cheios de vagar, diz-se que eternamente à espera de um salvador da pátria… mas desconfio de que antes à espera uns dos outros.

Luísa, in Nocturno (nossos links)

1 comentário:

Luísa disse...

Mais uma vez, João, os meus agradecimentos pela sua referência e pela sua atenção. Fico um pouco nervosa com a responsabilidade que me cria. :-)