terça-feira, julho 22, 2008

Blogando com prazer (99)

Um homem já com lugar na História

A imagem, que veio reproduzida sexta-feira nas capas de todos os jornais nacionais espanhóis, é aparentemente banal: dois homens, fotografados de costas, caminham num jardim bem cuidado. Um deles, de casaco, põe a mão por cima do ombro do outro, em mangas de camisa.
Dito assim, sem pormenores adicionais, parece quase estranho que tal fotografia tenha merecido tanto destaque. Falta acrescentar o nome de ambos: o homem mais alto, à esquerda, é o rei de Espanha, Juan Carlos I de Borbón; o homem que caminha a seu lado é Adolfo Suárez, que o monarca designou primeiro-ministro numa fase dramática da vida colectiva espanhola, no período imediato do pós-franquismo, em que chegou a temer-se a eclosão de uma nova guerra civil, tão sangrenta como a dos anos 30.
A estes dois homens se deve o êxito da transição espanhola, que passou da ditadura para a democracia sem ónus financeiro nem rasto de sangue. Juan Carlos foi a referência máxima de estabilidade nesse período, Adolfo Suárez foi o homem audaz que soube interpretar os sinais históricos. Fundaram um regime, que subsiste até hoje. Lançaram os alicerces da Espanha moderna – estado próspero e progressivo, invejado em tantas latitudes.
Suárez, então o homem certo no lugar certo, está gravemente doente há vários anos: afectado pela doença de Alzheimer, deixou de reconhecer até os familiares mais chegados, tornou-se incapaz de alimentar uma conversa coerente e inteligível. “No reconoció al Rey, pero notó su cariño”, revelou o filho mais velho, Adolfo Suárez Illana, o autor da foto que comoveu milhões de espanhóis. Visto de costas, ladeando o monarca, Adolfo pai mantém a elegância e o garbo de sempre. Parecem ambos entretidos em amena cavaqueira. Uma prova – mais uma – de que as aparências iludem.
Também eu me comovi ao ver esta imagem: Adolfo Suárez foi um dos raros políticos que sempre admirei. O destino pregou-lhe uma partida cruel: ainda está entre nós, mas é como se já não estivesse. O intelecto fugiu-lhe: sobram-lhe momentos de genuína emoção, como garante o filho. A visita do rei, que lhe entregou a condecoração mais alta de Espanha, terá sido um desses momentos no crepúsculo da vida deste político que pela sua acção destemida soube conquistar um lugar na História.


publicado por
Pedro Correia, in Corta-Fitas (nossos links)

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