quarta-feira, janeiro 30, 2008

A Diz Que É Uma Espécie de Remodelação não acaba aqui

José Sócrates chamou, ontem, Correia de Campos e Isabel Pires de Lima, comunicando-lhes que iam sair do Governo. A prometida (e adiada) remodelação do Governo foi, assim, quase cirúrgica, com a entrada de Ana Jorge (chefe de Pediatria no hospital Garcia de Orta ecom problemas com o Tribunal de Contas) e de Pinto Ribeiro (administrador da Fundação Berardo e advogado dos Gato Fedorento), mas ainda deverá ter sequelas. É que o primeiro-ministro autorizou alguns ministros a aproveitarem a ocasião para trocarem de secretários de Estado.
As mexidas deverão, tudo indica, acontecer nos próximos dias, aproveitando o facto de os dois novos ministros ainda terem de dar posse aos ajudantes que escolherem para os 18 meses que lhes restam em funções. As mexidas finais são justificadas por dificuldades de funcionamento (ou seja, de relacionamento) e podem abranger as Obras Públicas, Agricultura, Justiça e Economia.
A saída de Correia de Campos era, entre todas as mudanças ontem anunciadas, a mais comentada. O até agora responsável pela Saúde foi, nestes dias, o alvo de todos os ataques, muito por causa da reforma do sistema de urgências. Depois dos avisos de Cavaco Silva e do apelo à demissão por Manuel Alegre, a pressão política disparou. Hoje mesmo, havia teste de fogo marcado porque Correia de Campos ia apresentar aos deputados o mapa definitivo da reforma. Saindo antes, fica uma margem de recuo pontual para a nova ministra - permitindo-lhe um fôlego importante para reconciliar o sector.
Se dúvidas existissem sobre a necessidade de acalmar os ânimos na Saúde, o próprio Correia de Campos deixou-o claro ontem mesmo. Depois de conhecida a sua saída (que o gabinete do primeiro-ministro justificou dizendo acontecer a pedido do ministro), a agência Lusa publicava uma "carta de demissão", onde Correia de Campos justificava a sua saída "em nome da confiança entre cidadãos e SNS".
É claro que a substituição do mais impopular dos ministros provocou reacções imediatas. Muitas de satisfação e alívio, nomeadamente dos responsáveis do sector, autarcas e populações em protesto. Mas não só.
Vital Moreira, um dos homens tidos por referência deste Governo, deixou clara a sua desilusão "É uma clara vitória da rua, do aparelho do PS e da oposição. Decididamente é impossível fazer reformas contra os interesses estabelecidos, contra as visões localistas e contra o clamor demagógico dos média", avisou no seu blogue pessoal. Mais à direita, Pacheco Pereira deitou lenha à mesma fogueira: "Acabou o período em que o primeiro-ministro era indiferente aos assobios e a Manuel Alegre."
Mesmo no interior do PS, os elogios à remodelação não eram absolutos. Ouviam-se palavras de esperança, de deputados como Maria de Belém. Mas o próprio Alegre dizia preferir uma mudança que incluísse, por exemplo, a ministra da Educação. Outros, em sigilo, atiravam contra o "tempo e o modo" das mudanças - considerando-a tardia e até "pífia".
Quanto aos outros "remodeláveis" ganharam, agora, nova tranquilidade - a que tinham suspenso quando José Sócrates confirmou, na sexta-feira, a saída iminente do terceiro elemento ontem anunciado Amaral Thomaz, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Agora, só falta saber quantos mais secretários de Estado saem...e até que ponto as políticas mudam ou a popularidade de Sócrates volta a subir ou a descer.

2 comentários:

cristina ribeiro disse...

De entre esta sua análise, feriram-me os ouvidos as palavras de Vital Moreira - vê-se que ele vive num outro mundo, que não o daqueles que têm vindo a sofrer na pele as consequências das "reformas" que refere...

j.c. disse...

De acordo com Vital Moreira, esta 'diz-que-é-uma-espécie-de-remodelação' fica a dever-se à conjugação de várias vitórias: a vitória da rua, a vitória do aparelho do PS, a vitória da oposição, a vitória dos interesses estabelecidos, a vitória das visões localistas e a vitória do clamor demagógico dos 'media', avisou no seu blogue pessoal.

Vital Moreira esqueceu-se de uma. Então a vitória do 'bota-fora' deste blogue não conta?

Já José Pacheco Pereira, por seu turno, assinala que «acabou o período em que o primeiro-ministro era indiferente aos assobios e a Manuel Alegre».

Pacheco Pereira focou um aspecto curioso, porque o primeiro-ministro esteve precisamente no Porto (ironias da vida), onde foi assobiado e onde disse que não se deixava intimidar. O que Sócrates esqueceu é que o cordão de agentes que seguravam os manifestantes não segurava Manuel Alegre...