quarta-feira, janeiro 30, 2008

Austrália pede desculpas aos aborígenes


O Governo Federal australiano vai pedir desculpas à população indígena do país, embora sem responsabilizar a actual geração de australianos, anunciou hoje um membro do novo executivo em Camberra.
Jenny Macklin, ministra dos Assuntos Indígenas, anunciou que o pedido de desculpas às chamadas "gerações roubadas" será o primeiro assunto a ser discutido no novo Parlamento, controlado pelos Trabalhistas.
"O pedido de desculpas vai ser feito em nome do Governo australiano e não atribui a culpa à actual geração do povo australiano", afirmou a ministra.
Para Jenny Macklin, o pedido lançará uma nova era nas relações entre os aborígenes australianos e o resto da população.
O pedido de desculpas tomará a forma de uma moção à Câmara dos Representantes, na primeira sessão do novo Parlamento, a 13 de Fevereiro.
Pela primeira vez, a sessão seria inaugurada com um discurso de um nativo do povo Ngunnawal, habitante ancestral da área onde foi construída a capital federal.
O Governo do primeiro-ministro Kevin Rudd pretende que o debate sobre o pedido de desculpas possa encontrar uma fórmula abrangente, acrescentou Jenny Macklin.
O próprio Kevin Rudd, porém, afirmou depois que está fora de questão qualquer tipo de compensação e que as desculpas se referem apenas a indígenas retirados às famílias em razão da sua raça.
Para Christine King, co-presidente da Aliança das Gerações Roubadas, a palavra-chave é "desculpa".
Christine King, emocionada, considerou o anúncio do pedido de desculpas "um momento histórico", refere a edição de quinta-feira do Sydney Morning Herald.
Brendan Nelson, o líder da oposição, afirmou hoje à imprensa australiana que a Coligação só tomará uma decisão sobre o pedido de perdão após um debate de dois dias na próxima semana.
A oposição, explicou Brendan Nelson, pretende ver os termos do pedido de desculpas antes de decidir apoiar ou rejeitar a moção do Governo.
Os aborígenes australianos são uma minoria de cerca de 450 mil pessoas numa população de 21 milhões e vivem sobretudo em áreas remotas do Território do Norte e na Austrália Central.
O anúncio das desculpas da Federação marca uma viragem política na sequência da derrota em 24 de Novembro da coligação conservadora dirigida pelo ex-primeiro-ministro John Howard.
O líder dos Liberais australianos recusou, ao longo dos 11 anos na chefia do governo, qualquer pedido de desculpas pelas políticas federais em relação à população nativa.
John Howard foi acusado, com frequência, de legitimar com persistência formas negacionistas da História e do presente da Austrália, regredindo uma geração nas relações da sociedade australiana com a "Primeira Nação".
Cerca de cem mil crianças aborígenes, na maioria mestiças, foram retiradas compulsivamente às suas famílias entre 1910 e 1970.
Até 1967, os aborígenes australianos não tinham direitos de cidadania e as primeiras políticas de integração ou assimilação, com resultados que continuam a ser matéria de discussão e polémica, datam da década de 1970 e 1980.
Em Junho de 2007, na sequência de um relatório chocante sobre abuso sexual de crianças em comunidades aborígenes, John Howard enviou para o Território do Norte as Forças de Defesa Australianas.
O Governo Federal colocou, então, os militares à frente de uma "Intervenção de Emergência" destinada a enfrentar problemas graves de integração, educação e habitação das comunidades nativas.
Os críticos da "Intervenção" receiam que o resultado seja o "roubo" de uma nova geração de crianças aborígenes.

Sem comentários: