terça-feira, janeiro 29, 2008

Ana Gomes tinha razão


A eurodeputada socialista sempre se bateu pelo esclarecimento cabal sobre a conivência das autoridades portuguesas no transporte de prisioneiros para Guantanamo. As suas teses também sempre foram combatidas pelo governo de Sócrates e as investigações sobre o assunto nunca passaram do fingimento. Agora ficou claramente provado que Ana Gomes tinha razão.
Portugal terá tido um papel muito mais relevante do que se sabia no transporte de prisioneiros de guerra e/ou suspeitos de terrorismo pelos EUA para a prisão de Guantanamo.
Um relatório da ONG britânica Reprieve ontem divulgado, diz que 728 dos 744 prisioneiros transportados para esta unidade militar norte-americana em Cuba passaram por "jurisdição portuguesa". Ou pisaram mesmo solo nacional aterrando em pistas nacionais ou cruzaram o espaço aéreo.
O relatório da Reprieve inclui os nomes dos prisioneiros transportados bem como os sítios de onde partiram. E ainda lista os 48 voos onde esses prisioneiros foram alegadamente transportados. Pormenores que, até à data, não tinham sido revelados, pelo menos de forma tão sistemática. Desses 48 voos, nove aterraram em Portugal (todos nos Açores, nos aeroportos das Lajes e Santa Maria).
O primeiro voo registado ocorreu em 11 de Janeiro de 2002 (proveniente da base de Morón, em Espanha) e o último em 7 de Maio de 2006. Portanto, os chamados "voos da CIA" atravessaram três governos portugueses: a fase final do de António Guterres (já em gestão corrente), todo o do PSD/CDS e o actual. Mesmo assim, é no governo de José Sócrates (tomada de posse em 12 de Março de 2005) que ocorre o maior número de aterragens em Portugal: cinco. A primeira logo dois dias depois da tomada de posse, a 14 de Março, nas Lajes (ilha Terceira, Açores).
Em 2005 mais três aterragens foram registadas em território português: em 22 de Julho (Lajes), 22 de Agosto (novamente Lajes) e 8 de Setembro (Santa Maria). A última aterragem registada é de 7 de Maio de 2006. Em apenas num dos voos registados como tendo partido de Portugal, a Reprieve apresenta a lista dos respectivos passageiros: três paquistaneses, três iemenitas, um afegão, um saudita e um etíope. As listas preparadas pela ONG recorreram, em parte, ao trabalho já efectuado pela eurodeputada socialista Ana Gomes.
Clive Stafford Smith, director legal da Reprieve (expressão que pode ser traduzida em português por indulto ou comutação de pena), diz no relatório que o Governo português "tem de fazer um sério exame de consciência". "Nenhum destes prisioneiros poderia ter chegado a Guantanamo sem a cumplicidade portuguesa."

1 comentário:

j.c. disse...

A Procuradoria-Geral da República prometeu o resultado das averiguações para breve. Veremos o que vai dar...