> A morte de Jorge Ferreira, colhido na força da vida por uma doença tão traiçoeira como cruel, leva-me a fazer uma reflexão. Longe de panegíricos, tão fáceis de encontrar nestes momentos, escreverei aquilo que me merece atenção do percurso público deste cidadão que nunca teve medo de dizer o que pensava.
Jorge Ferreira notabilizou-se como político, e em minha opinião, cometeu um erro político gravíssimo na sua - infelizmente curta - vida: tal como Manuel Monteiro, convenceu-se de que o CDS (partido de que foi destacado dirigente e líder do grupo parlamentar no consulado monteirista) poderia chegar à liderança do centro-direita atacando primacialmente o PSD.
Ora, tal partiu de um desconhecimento da realidade e da histórica política portuguesa pós- 25 de Abril.
Goste-se dela ou não se goste, a massa de apoio da direita em Portugal - e a que era matéria-prima para qualquer projecto dessa área - veio da Acção Nacional Popular.
Todavia, as estruturas, os militantes de base e os contactos da Acção Nacional Popular não foram para o CDS mas para o PSD (o próprio Freitas do Amaral assumiu que teve medo de os receber). Pelo que era inevitável que durante estes 35 anos fosse o PSD a âncora do centro-direita português. O motor do PSD até pode não ter sido esse, mas a carroçaria foi-o de certeza. E sem carroçaria não adianta ter motor.
Assim se explica em boa parte (embora não totalmente, pois para isso também contribuiu o seu tardio aparecimento) que o CDS tenha sempre tido uma notável plêiade de personalidades de primeira linha mas sofra de uma endémica debilidade organizacional e de implantação local.
Acresce que, enquanto o PSD na década de 80 se afastava decisivamente de qualquer desvio socializante, o CDS, pela mão de Freitas, entrou na espiral da equidistância entre PSD e PS, o que feriu a credibilidade dos centristas aos olhos da já fina fatia do seu eleitorado natural que sobejava do que o PSD devorava.
A liderança de Manuel Monteiro, iniciada em 1992 após derrotar a linha freitista representada por Basílio Horta, afastou certo discurso e prática de indefinição ideológica, com o que ajudou a revitalizar o seu partido, mas nunca percebeu completamente esta realidade. Conseguiu que o CDS assumisse ser o que era; contudo, nunca soube pôr o projecto em prática de modo realista e efectivo.
Atacou sempre, sem dó nem piedade, o PSD. Chegava a entendimentos com o PS de Guterres mas saltava à jugular laranja com uma ferocidade rara.
Em comissões parlamentares de inquérito chegou a votar desfavoravelmente em relação ao PSD enquanto os próprios socialistas se abstinham.
O resultado das eleições de 1995 permitiu ao já CDS/PP deixar de ser o partido do táxi (passando de 5 para 9% dos votos). Mas mais por beneficiar do fim do cavaquismo do que por outra coisa.
Manuel Monteiro e Jorge Ferreira (que lhe foi sempre de uma lealdade rara em política) acabaram por se ver sozinhos. Com um partido pequeno, sem grande margem de progressão e de costas voltadas para a única força política com quem podiam ter algo em comum.
Paulo Portas, que fora o condutor do banco de trás no novo PP, acabou apeá-los do poder interno em 1998, ainda não acabara a legislatura em que Monteiro fora a votos. E logo mudou a estratégia. Fez a Alternativa Democrática com Marcelo (o projecto falhou mas ficou a intenção e o exemplo). Nunca atacou de forma sistemática o PSD, mas apenas em questões concretas, cirúrgicas. Fez dezenas de coligações autárquicas com os sociais-democratas, o que permitiu que o CDS (que já começara a ser varrido do poder local em 1997) tenha um papel municipal, ainda que secundário, o que estava em risco de deixar de ter. Chegou ao poder em 2002 coligado com o PSD. E nas eleições de Setembro deste ano teve o melhor resultado desde 1985, sem fazer do PSD o principal adversário.
A diferença está em que Portas percebeu a realidade e tratou de conviver com ela da melhor forma.
A Nova Democracia, onde os resistentes monteiristas se exilaram, não vingou. Mas Ferreira manteve-se fiel a essa tendência, mostrando coerência e até desapego ao poder.
Foi já neste período de ocaso político que Jorge Ferreira se tornou blogger. Com um sucesso considerável. Muitas vezes procurei a sua rubrica "AO LONGO DOS TEMPOS", que era de grande utilidade para quem gosta de conhecer efemérides. Fará falta.
O desaparecimento precoce de Jorge Ferreira leva consigo a sua frontalidade, vivacidade e espírito de combate. Não foi um apparatchik cinzento. Foi um homem que representou um tempo e uma linha de acção - algo de que muitos não se podem orgulhar.
Carmindo Mascarenhas Bordalo
Professor Catedrático Jubilado